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Beaujolais, um vinho de muita história

Publicado em: 9/12/2020

Arthur Azevedo

 

Beaujolais é uma denominação de origem da França, cujos vinhos são produzidos com a uva Gamay. Muitas vezes incompreendido, é um dos poucos vinhos tintos adequados para o verão

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Localizada na região central da França, ao Norte de Lyon e ao Sul da Borgonha, Beaujolais é uma área de produção cuja história remonta ao tempo dos romanos, que plantaram ali os primeiros vinhedos, nas encostas do Monte Brouilly.
A saga continuou do século 7 até a Idade Média pelas mãos dos Monges Beneditinos, e foi no século 10 que a região ganhou o nome atual, a partir da cidade de Beaujeu. No século 15 a cidade passou para o domínio do Duque da Borgonha, sendo seus vinhos vendidos apenas nas cercanias da região de origem.

Foi somente no século 19, com a expansão do sistema ferroviário que o vinho de Beaujolais chegou aos restaurantes de Paris, com grande sucesso.

Foi também nessa época que se iniciou a tradição da venda de vinhos recém produzidos, com cartazes que anunciavam a chegada dos vinhos de Beaujolais de maneira enfática – “Le Beaujolais est arrivée”, ou seja, o Beaujolais chegou.
Esta prática foi o embrião da famosa festa do Beaujolais Nouveau, termo criado por Georges Duboef, cuja data é comemorada em todo o mundo na terceira quinta-feira de Novembro.

No século 20, por volta de 1980, o Beaujolais ganhou muita popularidade por causa da febre do Beaujolais Nouveau, o que acarretou uma diminuição da produção dos outros estilos de maior qualidade do vinho, levando a uma onda de críticas e queda na reputação do vinho.
Isso foi revertido no século 21, com a ênfase na produção de vinhos mais complexos, com amadurecimento em barricas de carvalho, foco no terroir e em vinhos de vinhedos especiais, especialmente os dos chamados Crus de Beaujolais, situados no Norte da Denominação de Origem.

Clima e Solo adequados para a Gamay Noir a Jus Blanc

Existem na região 18000 hectares de vinhedos, situados ao longo do vale do Rio Saône, com clima semi-continental, na média um pouco mais quente que a vizinha Borgonha, com risco de geadas na primavera.

Ao Norte de Beaujolais, onde se situam os melhores vinhedos, e se produzem vinhos mais estruturados e complexos, o solo das encostas é de xisto (ardósia) e granito, com áreas de calcário. Aqui estão os 10 Crus de Beaujolais e também os chamados Beaujolais-Village.
Ao Sul, os terrenos são planos, ricos, baseados em argila e arenito, com áreas de calcário, e os vinhos provenientes dessa área são leve e frutados e designados como Beaujolais AOC.

O processo de vinificação é geralmente a maceração semi-carbônica, que se utiliza de cachos inteiros em ambiente sem oxigênio, o que promove um ciclo enzimático intra-celular, com produção de um vinho muito particular, com aromas de banana e verniz. Processos mais clássicos, com uso de leveduras também são utilizados nos vinhos de maior complexidade e personalidade.

A mais elevada classificação, e portanto a que engloba os melhores vinhos, é a dos Crus de Beaujolais, a saber: Morgon, Mouli-a Vent, Chénas,, Juliénas, Fleurie, Saint-Amour, Côtes de Brouilly, Brouilly, Chiroubles e Régnié. Nestes casos, o nome Beaujolais não aparece no rótulo, sendo designado apenas o nome do Cru correspondente.

De modo geral é um vinho para se beber jovem, sendo que o Beaujolais Nouveau deve ser bebido imediatamente após a liberação, o Beaujolais AOC e o Beaujolais-Village AOC até dois anos da safra e os Crus de Beaujolais de 3 a 5 anos a partir da safra.

Os mais simples podem ser servidos em temperaturas que vão de 10 a 12ºC, acompanhando uma variada tábua de frios, num piquenique de domingo e os mais sofisticados podem acompanhar carnes grelhadas mais leves, aves e carne de porco. Como já citado, são ótimos para o verão.

Arthur Piccolomini de Azevedo é Vice-Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers-SP, editor do website Artwine (www.artwine.com.br), jornalista, palestrante e consultor. Instagram: @artwine

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