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Telmo Rodriguez, um enólogo sem limites

Publicado em: 27/10/2020

Arthur Azevedo

Telmo Rodriguez é um dos mais importantes enólogos da Espanha, não só pela excelência de seus vinhos como também pela suas ousadas posições e revolucionárias ideias

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Espanhol de corpo e alma, Telmo Rodriguez aprendeu desde muito cedo os segredos da elaboração dos vinhos, na propriedade de sua família, a Finca Remelluri, importante vinícola de Rioja, uma das mais tradicionais e relevantes regiões vinícolas daquele país.

Estudou enologia na França e desde então mantém estreitas relação com o país, seguindo os passos de muitos enólogos espanhóis que trilharam o mesmo caminho. É sempre bom lembrar que Rioja e Bordeaux sempre estiveram muito próximas e no século 19, foram os franceses os primeiros a trazer as barricas de carvalho para a Espanha.

O fato de ter sua formação na França jamais o afastou de seu país de origem, e Telmo tem orgulho de dizer que aprendeu muito com os produtores espanhóis tradicionais, não grandes em enólogos e sim grandes agricultores. Ressalta de forma enfática o fato de a Espanha ter mais de 100 variedades de uvas em uso, e exemplifica dizendo que “só a Galícia tem mais diversidade que toda a França”.

Crítico feroz dos modismos, da produção industrial focada nos lucros e menos na originalidade, Telmo afirma que Portugal e Espanha serão países chaves para o futuro do vinho na Europa. Implacável, reconhece que os espanhóis erraram ao plantar uvas francesas, como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Chardonnay e outras, pois não vê a menor necessidade de se recorrer a variedades estrangeiras num país que tem tantas uvas autóctones à disposição dos enólogos.

Ir contra a corrente, um de seus lemas favoritos

Em live organizada pela jornalista Fernanda Fonseca, da Pandora Experiências de Vinhos, Telmo, cujos vinhos são importados para o Brasil pela Mistral Importadora, deu uma verdadeira aula, e um show de simpatia e conhecimento, respondendo a todas as perguntas dos jornalistas e fazendo revelações surpreendentes.

Hoje produzindo vinhos em diferentes regiões da Espanha como Ribera del Duero, Rioja, Toro, Valdeorras, La Mancha, Málaga e outras, Telmo tem usado as técnicas orgânicas e biodinâmicas para elaborar seus vinhos, que são de pequena produção e que falam de paisagens diferentes, buscando recuperar zonas esquecidas.

Segundo ele, a produção de vinhos baratos e em grande quantidade causa a destruição dos melhores vinhedos. Também dá seu integral apoio para a chamada viticultura heroica, em áreas de difícil cultivo, tais como Ribera Sacra, Bierzo e Priorato.

Telmo também se posiciona contra o uso de produtos químicos como pesticidas e herbicidas em seus vinhedos, seguindo a tradição da família, uma vez que seus pais jamais usaram esse tipo de produto nos vinhedos da Remelluri.

Ressalta ser fundamental respeitar a natureza para se produzir bons vinhos, pois “se sua vinha estiver destruída por produtos químicos, você não terá boas leveduras para uma fermentação natural”.

Mais uma vez surpreendendo, Telmo diz que “não se considera um enólogo moderno e que é mais um viajante, um descobridor que trabalha com equipes de jovens talentosos”.

“A Espanha é um país ligado ao passado, porém com mentalidade sofisticada e muita atenção aos seus sabores originais”, afirma com indisfarçável orgulho.

Por fim, diz que a enologia se apoia muito na observação da natureza e que procura aplicar esse conhecimento na produção de vinhos, que tenham ótima qualidade e que expressem seus locais de origem, mas “sem buscar a perfeição, pois isso não é interessante”.

Nossos agradecimentos à Fernanda Fonseca e Mistral pelo convite para participar dessa ótima conversa com Telmo Rodriguez.

Arthur Azevedo é Vice-Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers-SP, editor do website Artwine (www.artwine.com.br), jornalista, consultor e palestrante.

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