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Ànima Negra, um vinho com a alma de Mallorca

Publicado em: 21/09/2020

Arthur Azevedo

 

Nascido nas Ilhas Baleares, em pleno Mediterrâneo, o Ànima Negra é uma dos mais autênticos e interessantes vinhos da Espanha, elaborado pelo genial Miguel Ángel Cerdà, um enólogo de rara sensibilidade

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Vinhos que desafiam as classificações, criados com paixão e competência, sem compromisso com as tendências internacionais e fruto da simbiose do clima, do solo e das variedades autóctones da Ilha de Mallorca. Essa seria a definição mais aproximada dos vinhos da Ànima Negra, vinícola fundada em 1994 por Miguel Ángel Cerdà, um inquieto e brilhante enólogo espanhol.

Recentemente Miguel Ángel participou virtualmente de uma conversa franca e descontraída com jornalistas brasileiros, numa reunião comandada por Fernanda Fonseca, dentro de seu projeto Pandora Experiências de Vinhos.

Iconoclasta por natureza, Miguel é daquelas raras pessoas que fala exatamente o que pensa e suas ideias são postas em prática em sua vinícola, o que resulta em vinhos sinceros, autênticos e especiais, baseados principalmente na uva Callet, que ele elegeu como a base de todos os seus vinhos, completada com outras uvas cultivadas na ilha, tais como a Mantonegro, Fogoneu e Prensal Blanc.

O foco de Miguel é a máxima qualidade dos vinhos e isso segundo ele exige sua máxima atenção e praticamente todo seu tempo. Não sobra tempo para mais nada, nem para receber eventuais turistas em sua vinícola, que é pequena e tem uma equipe bastante reduzida.

“Fazer um vinho que agrade o Parker, famoso crítico americano atualmente aposentado, é fácil”, alfineta. “Basta colher as uvas sobremaduras, concentrar o vinho ao extremo, usar extração elevada, carvalho bastante tostado e dar ao vinho a sensação de doçura”. “Difícil é deixar a natureza seguir seu caminho”, finaliza.

Para ele, o importante é buscar a tipicidade e proteger o caráter e a integridade das uvas.

Em termos viticulturais Miguel aposta numa técnica ousada, que é mesclar videiras selvagens com videiras cultivadas. Essa viticultura semi-selvagem não tem maturação homogênea e dá aos vinhos um sabor fantástico e original.

As uvas são selecionadas grão a grão com uma seletora óptica de última geração, garantindo que somente os melhores frutos entrarão no processo de vinificação, protegidos com neve carbônica para evitar a proliferação de micro-organismos indesejáveis. A mesma neve carbônica protege os tanques de fermentação, para evitar a oxidação.

A partir daqui a palavra chave é controle, uma vez que Miguel não reza a cartilha da moda dos vinhos naturais, feitos sem nenhuma intervenção do homem. Diz ser essa uma opção inviável.

A pior característica que um vinho pode ter é ser descuidado, diz, pois o vinho tem que ser protegido de diferentes micro-organismos que podem afetar a qualidade final do mesmo.

Ninguém quer vinhos com aromas desagradáveis ou com aromas de vinagre, só para citar dois defeitos comuns de vinhos feitos sem a intervenção providencial do enólogo. “Vinhos não controlados são inaceitáveis”

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Uma dos pontos que defende com veemência é evitar a fermentação espontânea, preferindo o uso de leveduras selecionadas, uma vez que são as leveduras que condicionam o sabor do vinho. Diz que as leveduras ditas indígenas são importantes, mas nem todas…

Para tanto, selecionam as próprias leveduras e as usam de acordo com as características de cada uma das castas e de cada safra.

Outro ponto importante que Miguel ressalta é o uso judicioso das barricas de carvalho, que segundo ele devem ser “invisíveis”, mas precisam aportar estrutura ao vinho.

Hoje a vinícola produz quatro vinhos, o ÀN, o ÀN/2, o branco Quíbia e o raro e cobiçado Son Negre, elaborado somente nos anos excepcionais com uvas de dos vinhedos mais antigos de Son Negre, de baixo rendimento e qualidade excepcional. Cada safra do vinho tem um rótulo exclusivo, com um desenho de Miquel Barceló, famoso pintor e amigo de Miguel Angel.

Para finalizar, uma frase de Miguel Ángel que define seus vinhos: “Um vinho é uma mescla de elegância e complexidade”. Simples de falar, difícil de elaborar…

Os vinhos Ànima Negra são importados com exclusividade para o Brasil pela Mistral Importadora

Arthur Azevedo é Vice-Presidente da ABS-SP, editor do website Artwine (artwine.com.br), jornalista, palestrante e educador em vinhos.

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