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Por que as celebridades são alvos para os haters?

Publicado em: 4/04/2020

Pamela B. Rutledge – Psychology Today – Estados Unidos

O recente suicídio de uma celebridade tornou claro os perigos da cultura do “cancelamento das redes sociais”.

Shocked ladies friends using mobile phone.

O suicídio da celebridade britânica Caroline Flack colocou em foco o poder e alcance da mídia negativa. O caso de Flack é tanto trágico, quanto complicado, mas muita culpa tem sido colocada na mídia, dos tabloides aos haters e difamadores. Se a humilhação pública foi ou não a culpada nesse caso, a aceitação crescente e doentia dos xingamentos públicos e dos cancelamentos de pessoas nas redes sociais e na mídia pode ter efeitos devastadores – sejam celebridades ou não.
As celebridades recebem muita atenção da mídia – isso é parte do lugar que ocupam, uma vez que, por definição, ser uma celebridade requer o conhecimento público sobre uma pessoa. Ser uma celebridade é uma validação social em larga escala. A popularidade confere à celebridade um nível de autoridade por meio da aprovação social.

 

“Nós assumimos que alguém que é admirado por muitos deve merecer nossa atenção”

Antes de você buscar por milhões de seguidores, lembre-se que a atenção nas redes sociais não é necessariamente algo positivo. Público significa todos os tidos de público, não apenas os fãs que apoiam e são bem intencionados.

 

Necessidade por aprovação social

 

Os humanos são animais sociais. As relações sociais são essenciais para nosso bem-estar físico e mental. O feedback que recebemos das pessoas é uma das formas pelas quais navegamos através dos espaços. A necessidade por validação social pode levar a problemas com as redes sociais porque nossos cérebros não se desenvolveram tão rápido quanto as tecnologias. Nós conseguimos rolar o feed do Instagram em nossos celulares, mas nosso cérebro pode estar em outro lugar. A maior parte de nossa evolução física e mental aconteceu durante as centenas de milhares de anos iniciais das primeiras civilizações; a era da internet dos últimos vinte anos é menos do que uma piscada quando consideramos a totalidade do processo evolutivo da humanidade. Isso deixa a questão sobre quão bem nossas mentes estão equipadas e/ou capazes de adaptarem-se às rápidas mudanças tecnológicas que estão acontecendo em nossas vidas.

 

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Cyberbullyng x risco suicídio

 

Tornar-se famoso ou uma celebridade pode fazer com que sejamos alvo de agressores e inimigos. Caroline Flack foi vítima de ataques nos últimos meses nas redes sociais e nos tabloides do Reino Unido. Embora muitas celebridades tenham sido igualmente perseguidas e abusadas, ser alvo de cyberbullying não se restringe aos famosos. E, convenhamos, reportagens irresponsáveis destinadas a abusar e envergonhar são apenas cyberbullying com um cabeçalho. Não diminui o dano e a humilhação produzida por informações sensacionalistas e muitas vezes exageradas que são amplamente divulgadas.
Inúmeras “pessoas comuns” foram publicamente vitimadas e sofreram consequências trágicas. Em uma metanálise, analisando pesquisas sobre adolescentes e suicídio, os pesquisadores van Geel, Vedder e Tanilon, em estudo publicado em 2014, descobriram que ser vítima de colegas era um fator de risco para ideação e tentativas suicidas, e que o cyberbullying estava mais fortemente relacionado ao suicídio do que o tradicional bullying. Os pesquisadores estão observando cada vez mais as consequências do cyberbullying considerando o transtorno de estresse pós-traumático.
Se você os chama de agressores ou inimigos, o resultado é o mesmo. O bullying é um comportamento agressivo repetitivo, intencional e pessoal. Ao contrário do bullying cara a cara, a rede social permite que os agressores sejam anônimos, removendo o contato direto. Eles podem imaginar o impacto do bullying e prestar atenção a sinais públicos, mas estão distantes da experiência real da vítima. O anonimato incentiva o comportamento além do que alguém faria pessoalmente. De fato, pesquisas sugerem que uma proporção significativa de jovens que praticam bullying on-line não o fazem quando estão cara a cara.
A “cultura de cancelamento”, no entanto, cria e santifica implicitamente grupos de inimigos com um senso de pertencimento e capacidade de racionalizar que “está tudo bem porque outros estão fazendo isso”. Nos grupos de fãs, geralmente vemos o bullying em massa “em defesa” de uma celebridade admirada. Os fãs percebem seu mau comportamento como um tributo que demonstra sua lealdade a uma celebridade que admiram. A história mostrou repetidamente que agir sob o argumento de que algo foi feito pelo grupo social que se pertence torna as pessoas menos propensas a seguir as restrições e inibições normais. E há uma recompensa dupla: 1) demonstrar a participação no grupo e 2) o frisson emocional de se comportar mal.

 

As mídias sociais facilitam hater

 

“As mídias sociais facilitam aos haters o ganho de peso, formando uma implacável multidão virtual vomitando algo que pode minar a autoimagem e o valor da vítima”

Infelizmente as plataformas de redes sociais são públicas e fáceis de acessar. As pessoas – até mesmo as celebridades – podem ser alcançadas por meio de menções e hashtags, e a interação é visível para um público maior, incentivando outras pessoas igualmente necessitadas a se unirem e experimentarem qualquer emoção que tenham pela maldade anônima.
Embora “deixar” as redes sociais pareça uma solução lógica, ela também cria uma continuidade significativa fora do mundo digital. A vida e a conectividade social dos adolescentes geralmente se concentram na comunicação em redes sociais. As celebridades geralmente confiam nas mídias sociais como uma maneira valiosa de manterem sua fama e estar em contato com os fãs. As motivações para os haters são irrelevantes para qualquer pessoa que receba agressão verbal ou humilhação vinda de conteúdos falsos. Não é muito reconfortante saber que o conteúdo de ódio é um reflexo da raiva, do ciúme, do sentimento de impotência, das tendências obsessivas, da falta de empatia ou de uma tentativa de aumentar seu próprio senso de poder social, diminuindo o do outro.
Manter o equilíbrio diante dos ataques requer pensamento e análise racionais, não uma resposta emocional. No entanto, nossos comportamentos mais instintivos quando estamos sob ataque são brigas, fuga ou o congelamento. São reações que desviam a energia do cérebro para as extremidades do corpo, caso precisemos correr ou lutar. Portanto, no momento em que mais precisamos da capacidade de nos autorregularmos e recuar racionalmente, estamos no modo de crise cognitiva, recebendo um soco no estômago.
Outro motivo importante para levarmos tanto a sério esse ódio é o viés interno da negatividade que também faz parte do nosso mecanismo de sobrevivência. Temos a tendência de focar a atenção em más notícias. Isso não significa falta de autoestima ou sinal de pessimismo (embora isso possa piorar).

 

“A evolução moldou nosso cérebro para ser extremamente sensível a potenciais perigos. Um ataque é muito mais crítico para nossa sobrevivência imediata do que um elogio.’’

Qualquer coisa que provoque raiva ou medo ativa uma resposta automática que captura nossa atenção. O psicólogo John Gottman argumenta que para manter um bom relacionamento precisamos de cerca de cinco ações positivas para cada negativa, por causa de nossa tendência a aumentar o negativo.
As celebridades podem estar entre aquelas pessoas que são particularmente vulneráveis. Embora a necessidade de gostar seja compartilhada por todos nós, a atenção e a adoração do público fazem parte da recompensa da fama e são percebidas como um indicador de sucesso com valor que pode ser convertido em dinheiro. O alcance da mídia social das celebridades pode chegar a milhões de pessoas – são muitos os que podem se virar contra você. Por exemplo, Caroline Flack tinha mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram. Justin Bieber supostamente tem mais de 100 milhões. Não é de se admirar que Bieber e várias outras celebridades como Millie Bobby Brown, Leslie Jones, Daisy Ridley e Selena Gomez tenham feito pausas nas redes sociais ou excluído contas para interromper o desgaste emocional produzido pelos haters. Quando você tem um grande número de seguidores, mesmo uma pequena porcentagem de haters cria uma avalanche de comentários negativos que podem desencadear um sentimento de vergonha, indignidade e rejeição, mesmo nas pessoas com melhores condições psicológicas.

 

Defensores x ofensivos

 

O cyberbullying cria papéis: o agressor, o alvo, o espectador e o defensor. Mas ter defensores não diminui as emoções negativas produzidas por conteúdos ofensivos. Tendemos a remoer o pior, especialmente quando estamos sensíveis, buscando aprovação ou já deprimidos. A depressão pode amplificar nosso viés de negatividade, tornando-nos ainda mais hiper-reativos à emoção negativa
Para usuários de mídias sociais, isso ressalta a necessidade de reconhecer as vantagens e desvantagens de uma presença pública e estabelecer limites desde o início. As plataformas das mídias sociais estão mal equipadas para policiar os haters. A enorme variedade do que entendemos como sendo mensagens odiosas torna esse controle insustentável, exceto nos casos mais flagrantes. Ninguém está cuidando de nós, a não ser nós mesmos. Enquanto algumas celebridades são capazes de transformar o ódio em motivação, fazendo com que comentários negativos se tornem sinal de sucesso, muitos outros têm estratégias para evitá-los completamente.

 

“Celebridade ou não, no entanto, todo usuário de mídia social deve descobrir como proteger sua saúde emocional e bem-estar.”

 

Esperamos que manifestações como a que rodeia a morte de Caroline Flack aumentem a conscientização para que comecemos a ser menos tolerantes a abusos verbais. Uma norma social é um comportamento aceito e tolerado. Temos que tomar uma atitude. Temos que parar de tolerar o mau comportamento. Precisamos intensificar o apoio quando vemos qualquer tipo de cyberbullying, pedindo ajuda, notificando as plataformas e pedindo ações, aumentando o número de vozes que combatem os haters.

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