comportamento

Eu lavei a louça, então você deve me amar!

Publicado em: 6/04/2020

Glenn Geher – Psychology Today – Estados Unidos

Compreendendo as maneiras de se relacionar com seu parceiro.

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Jack chega em casa do trabalho e está derrotado. O caminho de volta é longo e trabalhar como contador corporativo é desafiador. Ele chega e sua esposa Jane acabou de tirar a lasanha do forno. Perfeito. Os dois filhos sentem o cheiro da comida e entram correndo, assim a família compartilha uma boa refeição.
Depois do jantar, Jane pega o telefone, entra na outra sala e liga para a irmã para conversar.
Como acontece frequentemente nessas situações, as crianças imediatamente deixam o cômodo e é possível ouvi-las jogando videogame no andar de cima depois de alguns segundos.
Isso deixa Jack sozinho na cozinha que precisa de meia hora de trabalho para ser organizada.
Em relação a essa história, imagine os dois cenários a seguir:

• A. Jack olha ao redor e vê Jane conversando alegremente no telefone na outra sala. Ela está radiante; ela realmente gosta de conversar com a irmã e claramente está tendo uma ótima conversa. Jack ama Jane, mesmo depois de 18 anos de casamento, e esse amor realmente o enche de calor sempre que tem a oportunidade de ajudá-la. Jack não pensa duas vezes na questão da cozinha. Ele tira o paletó e a gravata, arregaça as mangas e começa a limpar. Enquanto limpa, faz um balanço de como sua família é ótima e percebe que está assobiando o tempo todo enquanto esfrega as panelas como se não fosse da conta de ninguém. O tempo todo ele está totalmente confiante de que Jane faria exatamente o mesmo por ele se a situação fosse ao contrário.

• B. Jack grita para as crianças descerem e o ajudarem, apenas para ouvir duas portas no andar de cima se fecharem. Como eles são prestativos! Ele olha para a cozinha que, em sua mente, não passa de uma zona de guerra. Ele começa a pensar no fato de que Jane trabalha apenas meio período e que ele não apenas é o responsável pela maior parte da renda familiar, mas também pensa sobre seu longo caminho de volta para casa e o trabalho intensivo, e o fato de que está disposto a tirar o lixo mais tarde na mesma noite… e o fato de ele ter limpado a neve da entrada de carros esta manhã … Jack fez mais do que o suficiente pela família hoje. Ele percebe que está ficando bravo. Vai até Jane, que está conversando alegremente com sua irmã e faz uma cara feia. Jane conhece bem essa expressão. Isso não significa apenas: “Estou bravo com você”, mas também traz a seguinte conotação: “Você está se esquivando de suas responsabilidades por aqui e estou farto. Você tem alguma ideia do quanto eu faço pela nossa família?” Logo depois, eles se veem em uma discussão que termina com cada um se sentindo magoado. Eles vão para a cama sem resolverem a raiva que sentem um pelo outro. Não é bom…

Abordagens de partilha versus abordagens de troca em relacionamentos íntimos

Em uma linha de pesquisa clássica sobre relacionamentos íntimos, Clark e Mills (1979) demarcam a diferença entre uma abordagem de “troca” nos relacionamentos íntimos e uma abordagem de “partilha”.
Uma abordagem de troca está amplamente enraizada em uma mentalidade de equidade, muito semelhante à psicologia em torno do altruísmo recíproco. Em um relacionamento baseado em reciprocidade, desenvolve-se uma contagem e, ao mesmo tempo, acompanha-se o que cada um faz como parte do acordo. Quid pro quo, por assim dizer – ou uma coisa pela outra.

• Eu cozinhei, então você deveria limpar.

• Eu cortei a grama, então você deve aspirar a casa.

• Eu ajudei Cindy com sua tarefa de casa, então você deveria ajudar Bobby com a dele.

No cenário B apresentado anteriormente, Jack está envolvido em uma abordagem de troca – e parece não estar funcionando tão bem. Pesquisas clássicas sobre esse assunto mostram que uma abordagem de troca nos relacionamentos funciona melhor se os dois membros do casal compartilharem a mesma abordagem. No cenário B, parece que Jane não está muito interessada na ideia de troca como Jack está.
Uma abordagem de “partilha” em um relacionamento é diferente. Nela, o bem-estar do parceiro é o ponto focal. Em um relacionamento simplesmente compartilhado, não há como contar ou controlar quem é “sub-beneficiado” ou “super-beneficiado”.
As pessoas que adotam uma abordagem de partilha nos relacionamentos ajudam seus parceiros não com base em cálculos de quem fez o que, mas sim por genuína empatia e preocupação por seus parceiros.
Obviamente, como em quase qualquer variável psicológica, essas abordagens para os relacionamentos provavelmente mudam em função do grau. Não é como se as pessoas viessem prontas em uma das duas variedades, orientadas para a troca ou orientadas para a partilha. Mas, dito isso, esse modelo de compreensão de abordagens para relacionamentos íntimos pode realmente ser útil para entender problemas de comunicação e outros, que muitas vezes surgem na cabeça quando o assunto é o amor.

Ser correspondido na abordagem é melhor

Pesquisas clássicas sobre relações de troca versus relações de partilha descobriram que as correspondências nessas abordagens funcionam melhor. Se os dois membros de um casal mantêm uma forte abordagem de troca, eles estão na mesma página e as coisas estão definidas para o sucesso. Da mesma forma, se ambos adotam uma abordagem de partilha, a vida é boa.
Por outro lado, uma incompatibilidade nessas abordagens básicas dos relacionamentos pode ser um terreno fértil para problemas.
Voltemos ao casal Jack e Jane. Imagine Jane como uma pessoa altamente orientada para a partilha em sua abordagem no relacionamento. (De fato, algumas pesquisas sugerem que essa abordagem é mais proeminente em mulheres do que em homens) Ela pode muito bem ter pouco entendimento do motivo pelo qual, no cenário B, Jack está tão bravo. Ela não está interessada em quem fez o quê. Ela não está contando. Ela só queria uma boa refeição com a família e depois conversar com a irmã. No cenário B Jack a forçou a uma discussão desconfortável, fundamentado em uma maneira de pensar que nem sequer é próxima de como ela entende os relacionamentos.
Por outro lado, no cenário B, Jack não entende a abordagem de partilha de Jane. Lembre-se de que ele é contador e trabalha para equilibrar os livros o dia inteiro: você está no vermelho ou no azul. Como Jane não consegue ver o quanto ele está trabalhando? Como ela não viu que deveria ter lavado a louça naquela noite, considerando tudo o que ele já havia feito naquele dia? Ela não está fazendo as contas?

O amor é especial

No final do dia, o amor vem de diversas maneiras. E quando o assunto são casais nos quais os membros relatam mais amor e mais satisfação amorosa, verifica-se que uma abordagem de partilha tende a ser melhor. Os relacionamentos em que um membro tem uma forte abordagem baseada na troca, tende, na verdade, a produzir o sentimento de não serem amados e esses relacionamentos geralmente resultam em baixa satisfação dos parceiros.

Limites

Embora exista uma série de variáveis psicológicas que definem o sucesso (e o fracasso) de um relacionamento, uma variável simples e poderosa é considerar se os parceiros adotam uma abordagem baseada na troca ou na partilha quando o assunto é a intimidade e o amor. Quando os membros do casal compartilham da mesma abordagem, as coisas estão destinadas a darem certo. Isso é especialmente verdade quando os membros do casal adotam a verdadeira abordagem de partilha para o relacionamento, colocando o bem-estar do parceiro acima de seus próprios. Talvez seja isso o amor.

 

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