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Quais os benefícios que manter relações sociais traz para a saúde?

Publicado em: 20/03/2020

Maria Cohut – revisado por Jasmin Collier  – Medical News Today – Inglaterra

Os humanos nascem em grupos sociais e vivem suas vidas inteiras como parte da sociedade, ou seja, o aspecto social não pode ser facilmente removido do processo de desenvolvimento de um indivíduo. Mas como o contato social afeta nossa saúde?

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Como seres humanos nós sonhamos, aprendamos, crescemos e trabalhamos enquanto vivemos em uma sociedade. Aquelas em que nascemos e pelas quais passamos ao longo de nossas vidas definem nossas identidades pessoais.

De fato, estamos tão interessados em nos comunicarmos com os outros – ainda que separados geograficamente – que desenvolvemos uma infinidade de ferramentas para nos auxiliarem a atingir esse objetivo, incluindo o papel e a caneta, o telégrafo, o telefone e a internet.
Quando eu perguntei aos meus colegas no escritório da Medical News Today quais os benefícios – se tivesse algum – eles consideravam como derivados das relações sociais, a maioria deles disse ter encontrado um pouco de conforto nas interações sociais.

Alguns colegas disseram que gostavam de compartilhar experiências, enquanto outros explicaram que ter amigos os mantinha motivados a fazerem “algumas atividades saudáveis de tempos em tempos”. Outros disseram que estar próximos de amigos os ajudava a “desestressar e colocar as coisas sob perspectiva.”.

Mesmo os mais introvertidos dentre nós desenvolvem contatos sociais de tempos em tempos. Mas o que exatamente isso significa e quais os verdadeiros benefícios para a saúde?

Neste artigo investigamos por que os seres humanos prosperam na sociedade e como a interação social afeta nosso bem-estar físico e mental.

 

Por que somos uma espécie social?

 

Pode parecer intuitivo dizer que sermos sociais ajudou nossa espécie não somente a sobreviver, mas também a prosperar ao longo de milhares de anos. Mas por que foi assim?

Um estudo de 2011, que foi publicado na revista Nature, argumentou que ser social se tornou uma força essencial para os ancestrais primatas dos humanos quando eles deixaram de procurar comida à noite (para que pudessem usar a escuridão como escudo) e passaram a realizar suas atividades durante o dia (o que os tornava mais vulneráveis a uma variedade maior de predadores).

Outro estudo mais recente – também publicado na revista Nature – sugere que os primeiros hominídeos podem ter desenvolvido uma forma básica de linguagem porque eles precisavam de uma forma mais avançada de comunicação para compartilhar ideias. Isto, diz a pesquisa, ajudou nossos ancestrais a desenvolverem ferramentas que os permitiram viver melhor e evoluir futuramente.
Pesquisadores também sugeriram que os humanos foram, inicialmente, seres compassivos, e que nossa compaixão e empatia nos serviu bem – considerando que nossa capacidade de nos preocuparmos e compartilharmos é muito valorizada por indivíduos que estão procurando por parceiros.

Afinal, para que uma espécie sobreviva, seus membros precisam não apenas procriar, mas também serem capazes de proteger seus filhos de danos e de proteger seus pares de ferimentos, para que possam, a partir da colaboração, obter força em situações adversas.

 

“O contato cara a cara é como uma vacina”

 

A psicóloga Susan Pinker afirma que contatos diretos entre as pessoas desencadeia, em partes do sistema nervoso, a liberação de um “coquetel” de neurotransmissores que regulam nossas respostas ao estresse e ansiedade.

Em outras palavras, quando nos comunicamos cara a cara com outras pessoas, isso pode nos tornar mais resilientes, em longo prazo, aos fatores que geram estresse.

“O contato cara a cara libera uma cadeia inteira de neurotransmissores e, como uma vacina, eles protegem você agora, no presente, e também no futuro, então, basicamente, cumprimentar alguém com um aperto de mão, ou saudar com um high-five é o suficiente para liberar oxitocina, que aumenta seus níveis de confiança e diminui os de cortisol, e isso diminui seu estresse”, afirma Susan Pinker.
Ela adiciona que, como resultado da interação social, “a dopamina [também] é gerada, o que nos dá uma pequena sensação de bem-estar e acaba com a dor, agindo como uma produção natural de morfina.”.

Essa ideia é corroborada pelas descobertas de um estudo acompanhado pela Medical News Today em 2017, que concluiu que o toque de um parceiro amoroso pode ajudar a aliviar dores físicas.

Outro estudo de 2017 mostrou que as pessoas submetidas à quimioterapia tendem a se sair melhor se tiverem apoio e interação social, o que sugere que, estarmos próximos de familiares, amigos ou outras pessoas que estejam passando por experiências semelhantes, pode nos fortalecer mental e fisicamente.

 

Motivação social e poder do cérebro

 

Pesquisas mostraram que ao interagirmos com outras pessoas, nós na verdade treinamos nossos cérebros. Motivação e contato social podem ajudar a melhorar a criação e retomada de memórias, protegendo o cérebro de doenças neurodegenerativas.

O Professor Mathew Lieberman – da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – é especialista na mecânica do que ele chama de “cérebro social”, que é a atividade neural relacionada à interação social e aos benefícios cerebrais proporcionados por ele.

Ele observou, por exemplo, que “se você aprende para ensinar alguém, você aprende melhor do que se aprendesse para fazer uma prova.”.
Isso vai contra as crenças comuns dos sistemas de ensino modernos, nos quais prefere-se o aprendizado individual, para acumular conhecimentos e habilidades.

Ao contrário, no entanto, o Professor Lieberman destaca que “quando você é motivado socialmente a aprender, o cérebro social pode aprender e pode fazer isso melhor do que o sistema analítico que normalmente é ativado quando você tenta memorizar.”.
Um estudo publicado em 2017, também identificou que manter amizades próximas em idades avançadas, pode ajudar a prevenir a perda de capacidades mentais.

A pesquisa – liderada por cientistas do Centro de Neurologia Cognitiva e Doença de Alzheimer da Escola Feinberg de Medicina na Universidade Northwestern em Chicago – descobriu que “SuperAgers”, que são as pessoas com 80 anos ou mais e que têm a agilidade mental de pessoas mais jovens, têm uma coisa em comum: amigos próximos.

“Enquanto os SuperAgers e [seus pares com desempenho cognitivo médio] corroboram os altos níveis de bem-estar psicológico”, explicam os autores, “os SuperAgers corroboram níveis mais altos de relações sociais positivas do que seus pares com idade cognitiva próxima”.

 

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O contexto social determina hábitos saudáveis

 

Vários estudos recentes também associaram as relações sociais com benefícios para a saúde física, e hábitos melhores com um estilo de vida saudável. Pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Maastricht, na Holanda, observaram que indivíduos socialmente ativos têm um risco reduzido de diabetes tipo 2.

Por outro lado, indivíduos que não participavam de atividades sociais, como sair com amigos ou participar de um clube, tinham um risco 60% maior de desenvolver uma condição chamada de “pré-diabetes”, que normalmente antecede a diabetes.

Pode ser que estar próximo de pessoas que nos encorajam a manter hábitos saudáveis ou alcançar objetivos para uma vida saudável, pode ajudar a nos mantermos conscientes de nossa alimentação, dos exercícios e outros hábitos relacionados ao estilo de vida.

Um estudo recente também descobriu que pessoas que se exercitam em grupo, ao invés de praticarem individualmente, tinham uma diminuição nos níveis de estresse e tinham um bem-estar mental e físico melhor ao final de um período de 12 semanas se exercitando.

Seus colegas que praticaram os exercícios sozinhos, ou que se exercitaram com apenas uma companhia, não experimentaram as mesmas melhorias.

“Os efeitos coletivos de estar com amigos e colegas, e fazer algo difícil, enquanto encorajamos uns aos outros, produz efeitos maiores do que o exercício realizado sozinho”, aponta o principal autor do estudo.

 

Uma ferramenta para felicidade e longevidade

 

Finalmente, desfrutar de laços sociais estreitos – com amigos, parceiros, ou familiares – pode nos fazer felizes e melhorar nossa satisfação geral com a vida em longo prazo.

Estudos demonstraram que aqueles que têm amizades íntimas na adolescência não se tornam apenas adolescentes felizes; eles também têm uma taxa mais baixa de depressão ou ansiedade quando mais velhos.

Tendências semelhantes foram observadas no caso de idosos. Uma pesquisa publicada em 2016, revelou que os idosos que “vivem uma vida socialmente ativa e priorizam objetivos sociais [têm] maior satisfação no final de suas vidas”.

Curiosamente, os pesquisadores que estudaram os habitantes das chamadas Zonas Azuis em todo o mundo – lugares com um número elevado de SuperAgers que vivem até a velhice enquanto mantêm boa saúde e boa função cognitiva – observaram que, enquanto outros elementos relacionados à dieta e estilo de vida variavam amplamente, todas as pessoas estudadas pareciam se dedicar na manutenção de uma vida socialmente ativa.

O Dr. Archelle Georgiou, que estudou SuperAgers na ilha isolada de Ikaria, na Grécia, viu que eles estavam constantemente cercados por familiares, vizinhos e outros membros de sua comunidade, e que todos se apoiavam ativamente.

Os habitantes de Ikaria, como observou o Dr. Georgiu, reúnem-se quase todas as tardes para desestressar e compartilhar as preocupações do dia.

De forma semelhante, os autores Ikigai: os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz, que entrevistaram os supercentenários da vila de Ogimi – em Okinawa, no Japão – observaram que manter relações sociais era o segredo da vida longa dessas pessoas.

“É costume em Okinawa formar laços estreitos nas comunidades locais. Um moai é um grupo informal de pessoas com interesses comuns e que se cuidam. Para muitos, servir a comunidade se torna parte de seu ikigai [propósito de vida].”

Os autores explicam que os membros de um moai “mantêm a estabilidade emocional e financeira”, pois todos os outros membros do grupo os ajudam caso tenham problemas ou enfrentem tempos difíceis.

É verdade que ser socialmente ativo não é necessariamente algo que todos nós possamos fazer o tempo todo. Às vezes, só precisamos de um pouco de espaço, e tudo bem; desfrutar de nossa própria companhia nos ajuda a nos conhecer melhor e a desenvolver algumas de nossas forças internas.

No entanto, pelo menos ocasionalmente, socializar com as pessoas – sejam eles nossos amigos íntimos ou novos conhecidos – pode permitir que nos distanciemos um pouco de nossos problemas e obtenhamos novas ideias sobre o mundo.
Ser mais feliz, aprender melhor e viver mais tempo são todas as vantagens que devem motivar até os dedicados dentre os solitários a saírem e se misturarem. Agora feche a revista e ligue para um velho amigo.

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