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CINCO RAZÕES PARA CUIDAR DAS NOSSAS TERRAS

Publicado em: 4/11/2019

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Usar melhor nossos solos é vital para sobrevivermos à emergência climática

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O desmatamento na Amazônia foi o mais alto dos últimos dez anos e a perda de florestas é a maior contribuição brasileira para o aquecimento do planeta © Daniel Beltrá / Greenpeace

Se queremos manter nossos corpos e nosso planeta saudáveis, precisamos fazer grandes mudanças na forma como cuidamos dos nossos solos.

O uso de práticas agrícolas ecológicas e a devolução de mais terras à natureza são fundamentais para evitar o agravamento da crise climática, fornecer alimentos suficientes para todos e para garantir a sobrevivência dos povos Indígenas em todo o mundo.
Infelizmente, um novo relatório importante do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) – órgão da ONU que fornece a análise científica para embasar a ação global – revela como os solos de todos os tipos (florestas, campos e zonas úmidas, para citar algumas) estão sendo maltratados, causando uma série de problemas sociais e ambientais.
Ironicamente, a maneira como produzimos nossa comida está causando muitos desses problemas. A agricultura industrial se expandiu por todo o planeta a uma taxa fenomenal, destruindo florestas e outras áreas naturais para produzir monoculturas e carne baratas.
Aqui estão as cinco principais razões pelas quais devemos ter mais cuidado com os solos:

 

1 – Usar terras com sabedoria vai combater a crise climática

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O desmatamento na Amazônia foi o mais alto dos últimos dez anos e a perda de florestas é a maior contribuição brasileira para o aquecimento do planeta © Daniel Beltrá / Greenpeace

Florestas grandes e saudáveis ​​são vitais se quisermos manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC, o nível necessário para manter o clima sob controle, assim como outras áreas naturais, como pastagens e zonas úmidas. Eles retiram dióxido de carbono da atmosfera para retê-lo na matéria vegetal e nos solos, por isso funcionam como “amortecedores” da crise climática. Por isso, as florestas que ainda existem precisam ser protegidas enquanto as florestas que já foram danificadas devem ser recuperadas. Para restaurar florestas naturais, precisamos plantar milhões de árvores nativas, em vez de criar plantações comerciais de árvores que não têm o mesmo impacto na redução das emissões, como os eucaliptos.
Mas o que está acontecendo na realidade é que as florestas e os campos estão sendo destruídos a uma taxa cada vez maior, em grande parte pela agricultura industrial. A iniciativa de produzir carne barata tem substituído vastas áreas de floresta por enormes fazendas de gado e plantações de soja para alimentar vacas, porcos e galinhas, como é o caso do Cerrado, que já perdeu metade da sua vegetação original. A conversão de florestas em terras agrícolas libera emissões de carbono. Portanto, não é surpresa que quase um quarto das emissões globais venha da agricultura, silvicultura e outros tipos de uso da terra – e a produção de carne e laticínios é responsável por uma proporção significativa dessas emissões.
A solução não é fácil e deve vir de um esforço coletivo: cortar a quantidade de carne e laticínios que produzimos e comemos diminuir a quantidade de florestas convertidas em terras agrícolas. Reduzir o consumo de carne ao redor do mundo em 50% nos próximos 30 anos (e por quantidades ainda maiores em regiões onde o consumo de carne já é alto, como Europa e América do Norte) é crucial para reduzir as emissões e combater a crise climática.

 

2 – Cuidar dos solos significa cuidar da vida selvagem e das espécies de plantas…

As abelhas são essenciais para a produção de alimentos © Axel Kirchhof / Greenpeace

As abelhas são essenciais para a produção de alimentos © Axel Kirchhof / Greenpeace

Não é nenhum segredo que florestas, campos e outras áreas naturais são paraísos para a vida selvagem e plantas. Refúgios de vida como a Amazônia contém milhares e milhares de espécies, muitas das quais ainda precisam ser estudadas ou até mesmo descobertas pelos cientistas.
À medida que essas paisagens naturais são convertidas em terras agrícolas industriais, essa riqueza está sendo substituída por enormes áreas dominadas por apenas algumas espécies – pecuária domesticada e plantações como óleo de palma e soja. Muitas espécies silvestres estão sendo levadas à beira da extinção, e outro recente relatório da ONU adverte que até um milhão de espécies enfrentam o risco de extinção por causa da atividade humana.
Para evitar isso, a expansão implacável da agricultura industrial precisa ser interrompida e áreas naturais restauradas para que possam continuar a ser o suporte desta variedade desconcertante de vida que até hoje só foi encontrada em nosso planeta. Além disso, a adoção de práticas agrícolas ecológicas reduzirá o uso de produtos químicos como agrotóxicos – o que seria uma boa notícia para as abelhas e outros insetos que estão em sério declínio.

 

3 – …e garante também a sobrevivência dos povos indígenas

Os Munduruku são um dos povos que bravamente vêm resistindo contra as agressões às suas terras © Anderson Barbosa / Greenpeace

Os Munduruku são um dos povos que bravamente vêm resistindo contra as agressões às suas terras © Anderson Barbosa / Greenpeace

Em todo o mundo, os direitos dos povos indígenas foram desrespeitados, resultando na destruição de suas terras e em genocídio. Os povos indígenas estão sujeitos a intimidação, violência e até mesmo assassinatos quando entram em conflito com empresas e governos que tentam explorar suas terras, seja para mineração, extração de madeira ou agricultura industrial.
Os povos indígenas representam menos de 5% da população mundial. No entanto, coletivamente, suas terras detêm mais de um terço de todas as áreas naturais remanescentes. Eles estão na linha de frente da luta para defender florestas e outras áreas naturais. Estudos mostraram que as áreas governadas por povos indígenas contêm mais biodiversidade do que em outros lugares e, no Brasil, registram taxas muito menores de desmatamento. O novo relatório do IPCC sobre uso da terra é claro: respeitar e apoiar os povos indígenas é vital para garantir que as florestas e outras áreas naturais sejam saudáveis e bem geridas.

 
4 – Terras saudáveis significam solos férteis

O movimento de expansão do agronegócio coloca em risco populações tradicionais, a disponibilidade de recursos naturais, como água, e a fertilidade dos solos. © Marizilda Cruppe

O movimento de expansão do agronegócio coloca em risco populações tradicionais, a disponibilidade de recursos naturais, como água, e a fertilidade dos solos. © Marizilda Cruppe

Eliminar a vegetação natural para cultivar intensamente é uma má notícia para o solo. Usar a mesma área para produzir várias colheitas a cada ano, com uso extensivo de agrotóxicos, causou danos consideráveis à fertilidade do solo. Segundo a ONU, um terço de toda a terra foi degradada e estamos perdendo anualmente 24 bilhões de toneladas de solo fértil. Claramente, isso terá um impacto sobre nossa capacidade de produzir alimentos.
Reduzir a carne na dieta e substituir a agricultura intensiva por uma abordagem mais ecológica reduzirá a pressão sobre as terras e manterá a fertilidade do solo. E o solo é outro grande espaço de armazenamento de carbono, portanto, mantê-lo em boas condições é outra solução natural para a crise climática.

 

5 – Até mesmo sua saúde irá melhorar

O Festival Percurso, realizado na periferia de São Paulo, busca discutir como disponibilizar alimentos saudáveis e sem veneno para todos. © Christian Braga / Greenpeace

O Festival Percurso, realizado na periferia de São Paulo, busca discutir como disponibilizar alimentos saudáveis e sem veneno para todos. © Christian Braga / Greenpeace

Cultivar colheitas para as pessoas comerem é um uso muito mais eficiente da terra do que produzir ração animal ou bioenergia, que exigem vastas áreas de plantio. Mas para isso, precisamos reduzir a quantidade de carne e laticínios que produzimos e comemos. Mudar para dietas amplamente baseadas em vegetais, com mais legumes, frutas, nozes e leguminosas, significará que menos terra é necessária para a agricultura, ou seja, é possível produzir mais alimentos sem derrubar mais árvores. Cortar a carne também pode não apenas reduzir o risco de problemas médicos, como doenças cardíacas e diabetes tipo 2, como adicionar até três anos e meio de vida para as pessoas.

 
Fazer essas mudanças é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta.

Dra. Reyes Tirado é pesquisadora do Laboratório de Pesquisa do Greenpeace na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Ela lidera investigações de campo e análises científicas sobre mudança climática e biodiversidade, agricultura e sistemas alimentares.

 

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