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VÍCIO: POR QUE NOSSO CÉREBRO SE NEGA EVITAR ÁLCOOL E ALIMENTOS

Publicado em: 2/09/2019

Ana Sandoiu – MNT – Medical News Today – Inglaterra – Checagem de conteúdo por Isabel Godfrey

 

Novas pesquisas oferecem insights fascinantes sobre como nossos cérebros ignoram estímulos ambientais de substâncias ou hábitos que causam dependência, o porquê é mais difícil ignorar esses sinais quando estamos estressados e como podemos ser capazes de vencer o vício.

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Se você é um fumante que está tentando parar, sabe que ao avistar a área de fumantes onde costumava compartilhar as últimas fofocas com seus colegas de trabalho poderá desencadear não apenas memórias divertidas, mas também desejos de nicotina.
Da mesma forma, a visão e o cheiro da comida podem desencadear nosso apetite e nos fazer querer comer mais do que precisamos. Estudos neurocientíficos também mostraram que ver uma propaganda de álcool faz com que certas áreas do cérebro, como o córtex pré-frontal e o tálamo, sejam hiperativas em pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool.
Outros estudos em roedores mostraram que estímulos ambientais ou gatilhos – como certos edifícios, objetos ou lugares – podem ter fortes efeitos sobre o cérebro. Por exemplo, em humanos, a exposição a esses gatilhos pode fortalecer as memórias que associamos a certos comportamentos, como o uso de substâncias que causam dependência.
No entanto, estarão nossos cérebros indefesos ao entramos em contato com esses gatilhos, ou nossas “unidades centrais de processamento” trabalharão sem parar, mantendo essas distrações longe?
Até agora, não estava claro o quanto de controle nossos cérebros podem exercer sobre esses estímulos, mas uma nova pesquisa vai além, descobrindo que estamos, de fato, continuamente defendendo sinais de recompensa indesejados que podem desencadear desejos e vícios. Fazemos isso usando os processos de controle executivo do nosso cérebro.
Poppy Watson, da University of New South Wales, em Sydney, Austrália, é a principal autora do novo estudo, publicado na revista Psychological Science.

 

Testando o autocontrole do cérebro
O termo “função executiva”, ou controle executivo, refere-se à capacidade do cérebro de resolver problemas, definir e trabalhar em direção a objetivos, prestar atenção, manter o foco e regular emoções, ao mesmo tempo em que usa funções cognitivas, que incluem “flexibilidade cognitiva, memória operacional e controle inibitório”.
A memória de trabalho, ou a memória de curto prazo, nos permite manter informações em nossas cabeças enquanto nos engajamos em outras atividades, por exemplo, lembrando da lista de compras ao ir ao supermercado.
Na nova pesquisa, Watson e sua equipe queriam ver se ignorar os gatilhos de recompensa seria mais difícil se as pessoas também tivessem que engajar sua memória de trabalho em plena capacidade.
Assim, os pesquisadores criaram um experimento em que os participantes tiveram que olhar para uma tela que mostrava várias formas, incluindo uma forma de diamante e um círculo colorido.
Os pesquisadores disseram aos participantes que eles receberiam dinheiro se encontrassem e olhassem para o diamante, mas se olhassem o círculo colorido, não receberiam nada.
A seguir, os pesquisadores disseram aos participantes que os círculos de cores diferentes significariam recompensas diferentes ao completarem a tarefa do diamante.
Portanto, um círculo azul na tela significava que eles ganhariam uma quantia maior de dinheiro, enquanto um círculo laranja indicava menos dinheiro.
Assim sendo, o diamante tornou-se o objetivo do foco, enquanto o círculo colorido foi o estimulo distrativo de recompensa.
Usando dispositivos de rastreamento ocular, Watson e sua equipe examinaram a direção em que os participantes olhavam na tela.
“Para manipular a capacidade dos participantes de controlar seus recursos de atenção, pedimos a eles que fizessem essa tarefa sob condições de alta carga de memória e baixa carga de memória”, explica Watson.
Nas condições de alta carga de memória, os participantes tinham que memorizar uma sequência de números, além de completarem a tarefa de diamante, de modo que seu controle executivo, ou seja, o foco, se tornasse altamente dividido.
“Os participantes do estudo acharam realmente difícil de se impedirem de olhar para os gatilhos que representavam o nível de recompensa – os círculos coloridos – mesmo que eles fossem pagos para tentar ignorá-los”, relata Watson.
“Crucialmente, os círculos ficaram mais difíceis de ignorar quando as pessoas foram solicitadas a memorizar números: Sob alta carga de memória, os participantes observaram o círculo colorido associado à alta recompensa em cerca de 50% do tempo, embora isso fosse totalmente contraproducente”. Poppy Watson
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Os resultados mostram, pela primeira vez, que as pessoas precisam de toda a sua atenção e recursos de controle cognitivo para conseguirem ignorar os sinais ambientais de uma recompensa. Em outras palavras, eles também ajudam a confirmar que o autocontrole é um recurso limitado.
“Temos um conjunto de recursos de controle que nos guiam e nos ajudam a suprimir esses sinais indesejáveis de recompensa. Mas, quando esses recursos são limitados, eles se tornam cada vez mais difíceis de ignorar”, explica Watson.
“Isso é relevante especialmente nas circunstâncias em que as pessoas estão tentando ignorar as pistas e melhorar seu comportamento, por exemplo, consumindo menos álcool ou fast food”, acrescenta o pesquisador.
As descobertas, continua Watson, também explicam por que as pessoas acham muito mais difícil abandonar um mau hábito ou abandonar um vício se estiverem passando por muito estresse.
As condições de grande tensão são o equivalente à versão de alta carga de memória do experimento, em que os participantes tiveram que lembrar e manipular várias informações ao mesmo tempo.
“Constante preocupação ou estresse é equivalente ao cenário de alta carga de memória do nosso experimento, impactando na capacidade das pessoas de usar seus recursos de controle executivo de uma forma que os ajuda a gerenciar os gatilhos indesejáveis no ambiente.”
“Se você está sob muita pressão cognitiva (estresse ou cansaço), deve-se tentar evitar situações em que será tentado pelos sinais. Você precisa estar no estado de espírito certo para que esteja em uma situação onde consiga parar de se distrair e deixar de percorrer um caminho que não quer seguir” Poppy Watson
Implicações para o tratamento da dependência
Os cientistas já sabiam que as pessoas acham difícil ignorar os gatilhos para uma grande recompensa, mas o novo estudo mostra que vencer esses gatilhos requer nossa função executiva e memória de trabalho. Também demonstra que isso é mais difícil de fazer quando precisamos lembrar informações adicionais.
Essas descobertas têm implicações importantes para o tratamento da dependência.
“Agora que temos evidências de que os processos de controle executivo estão desempenhando um papel importante em suprimir a atenção aos sinais indesejáveis de recompensa, podemos começar a olhar para a possibilidade de fortalecer o controle executivo como uma possível via de tratamento para situações como vício”, diz Watson.
“Nossa pesquisa sugere que, se você fortalecer o controle executivo, deve ter melhores resultados. Alguns estudos já demonstraram que o treinamento do controle executivo pode reduzir a probabilidade de você comer chocolate ou beber álcool”. Poppy Watson
Além disso, estudos clínicos mostraram que “treinar o foco atencional ao trocar fotos de álcool por refrigerantes pode reduzir a recaída” em pessoas com transtorno relacionado ao uso de álcool, diz ela.
No entanto, o autor adverte que ainda precisamos entender completamente “os mecanismos exatos” por trás disso, portanto, mais pesquisas são necessárias “para descobrir como exatamente podemos usar o controle executivo a nosso favor”.

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