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‘‘Tecnologia empática’’: APARELHOS QUE JÁ conseguem saber o que você está sentindo

Publicado em: 30/05/2019

Ana Sandoiu – MNT – Medical News Today – Inglaterra Checagem de conteúdo por Carolyn Robertson

Breve a tecnologia para o consumidor descreverá nossos estados mentais e físicos antes de nós mesmos

 

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Com aproximadamente 39 milhões de pessoas nos Estados Unidos atualmente possuindo um smart speaker (alto-falante inteligente), a tecnologia que atende às nossas necessidades está se tornando progressivamente onipresente, ocupando cada vez mais o nosso espaço pessoal.
Mas os dispositivos inteligentes podem fazer muito mais do que simplesmente tocar nossa música favorita ou pesquisar na internet quando solicitamos. Os smart speakers poderão, em breve, ser capazes de nos diagnosticar ou dizer como estamos nos sentindo.
Na Wired Health, uma conferência anual que traz à tona os últimos desenvolvimentos em tecnologia de saúde, a neurocientista e tecnóloga Poppy Crum, Ph.D., fez uma palestra intitulada “Tecnologia que sabe o que você está sentindo”.
Trilhando uma linha tênue entre o sinistro e esperançoso, o título traz um argumento poderoso: em breve, a tecnologia para o consumidor poderá conhecer nossos estados mentais e físicos antes de nós mesmos.
Mas como exatamente a tecnologia pode alcançar isso? Como podemos aproveitar seu potencial para nos ajudar a elucidar as condições físicas e mentais, e que papel a empatia desempenha em tudo isso?
Estas são algumas das perguntas que Crum respondeu na Wired Health, um evento que aconteceu este ano no Francis Crick Institute em Londres, Reino Unido.

 

O que é ‘‘tecnologia empática’’?

 

Crum, que é a cientista chefe da Dolby Laboratories em São Francisco, CA, e professora adjunta da Stanford University no Centro de Pesquisa de Computação em Música e Acústica, define tecnologia empática como “a tecnologia que está usando nosso estado interno para decidir como vai responder e tomar decisões”.

Então, como a tecnologia pode ler nossos estados internos? A palestra de Crum na Wired Health apresentou alguns exemplos neurofisiológicos interessantes que o tipo certo de tecnologia pode captar facilmente agora – um fenômeno o qual o cientista se referiu como “o fim da cara de paisagem”.
Por exemplo, como Crum mostrou em sua palestra, quando estamos nos sentindo sobrecarregados por uma carga cognitiva – ou, em termos mais simples, quando estamos lutando para entender alguma coisa – nossas pupilas se dilatam.
A pesquisa em pupilometria das últimas décadas mostrou que podemos rastrear múltiplos processos cognitivos, como memória, atenção ou carga mental, examinando o comportamento e medindo o diâmetro de nossas pupilas.
Na verdade, esta é uma experiência que todos podemos “experimentar em casa”. Em 1973, o renomado psicólogo Daniel Kahneman escreveu:
‘‘Encare um espelho, olhe para seus olhos e invente um problema matemático, como 81 vezes 17. Tente resolver o problema e observe sua pupila ao mesmo tempo, um exercício bastante difícil de praticar em atenção dividida. Depois de algumas tentativas, quase todo mundo é capaz de observar a dilatação pupilar que acompanha o esforço mental’’.
Outras experiências mostraram como a condutância da pele, também conhecida como resposta galvânica da pele, pode ser uma ferramenta para prever a reação emocional de uma pessoa ao assistir a um filme ou a uma partida de futebol.
A quantidade de suor que a pele de uma pessoa secreta, assim como as mudanças na resistência elétrica da pele, podem prever “estresse, exaltação, envolvimento, frustração e raiva”.
Além disso, humanos exalam produtos químicos, como o dióxido de carbono e o isopreno, quando se sentem solitários ou com medo. De fato, na palestra do TED, Crum havia rastreado o dióxido de carbono que os espectadores exalavam enquanto assistiam a cenas de suspense de um filme.
Embora os cientistas saibam sobre esses processos há algum tempo, observou Crum em sua palestra na Wired Health, os dispositivos que os pesquisadores usam hoje em seus laboratórios para detectar essas mudanças são 10 vezes mais baratos do que há décadas atrás. Além disso, óculos inteligentes agora podem detectar essas mudanças, assim como câmeras em longas distâncias.

 

Aplicações práticas de tecnologia empática

 

Os aparelhos auditivos “empáticos” podem ser personalizados e sintonizados a quantidade de esforço que uma pessoa com problemas auditivos precisa usar para entender o que alguém está dizendo”, disse Crum em sua palestra na Wired Health.

Isso ajudaria a desestigmatizar aqueles que vivem com certas deficiências, além de proporcionar a essas pessoas um cuidado ideal.
A tecnologia empática também tem amplas implicações para o nosso bem-estar mental. “Com câmeras, microfones, imagens térmicas e dispositivos de medição mais eficientes, podemos capturar dados em abundância”, escreve Crum, dados que podem, por sua vez, funcionar para alertar os cuidadores.
Sobre o tema da saúde mental, não são apenas os olhos que oferecem uma janela para a “alma” de alguém, mas também a voz, Crum expôs em sua palestra.
Pesquisadores aplicaram inteligência artificial (IA) a dados que reuniram em parâmetros como padrões sintáticos, variação no tom de voz e uso de pronomes para detectar com precisão o início da depressão, esquizofrenia ou doença de Alzheimer.
Por exemplo, há menos de um ano, Tuka Alhanai, pesquisador do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial (Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory, CSAIL) de Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge, EUA, liderou cientistas que projetaram um modelo de rede neural o qual previu com precisão a depressão ao analizar padrões de fala em 142 participantes.
“O modelo vê sequências de palavras ou estilo de fala, e determina se esses padrões são mais passíveis de serem vistos em pessoas que estão deprimidas ou não […] Então, se for visto as mesmas sequências em novos sujeitos, poderá prever se eles estão deprimidos também’’. Tuka Alhanai
O coautor do estudo James Glass, um cientista pesquisador sênior do CSAIL, também comentou as descobertas na época. “Todo paciente fala de maneira diferente”, ele disse, “e se o modelo vê mudanças, talvez sirva de alerta para os médicos […] Este é um passo adiante para ver se podemos fazer algo que sirva de apoio para auxiliar os clínicos.”
Outros pesquisadores usaram algoritmos de computador para estudar meio milhão de atualizações de status do Facebook como forma de detectar “marcadores de linguagem associados à depressão”, tais como sinais emotivos ou maior uso de pronomes de primeira pessoa, como “eu” ou “mim”.

 

Serious young female doctor using tablet computer

 

Luvas de artrite e design inclusivo

 

É claro que a tecnologia empática pode melhorar não apenas nossa compreensão das condições psicológicas, mas também das condições físicas.

Crum e sua equipe conduziram um experimento utilizando luvas de simulação de artrite para criar uma experiência empática para um grupo de participantes. Os pesquisadores então pediram a esses participantes para projetar o menu de um aplicativo, tendo em mente que seus usuários teriam artrite.
Os participantes do grupo de simulação de artrite tiveram uma experiência totalmente diferente daqueles do grupo em que não houve empatia com seus usuários. As pessoas do primeiro grupo eliminaram recursos como menus suspensos, por exemplo, que são difíceis para aqueles que têm problemas de mobilidade de dígitos.

As luvas foram o resultado de 10 anos de pesquisa sobre “design inclusivo”, um esforço liderado por John Clarkson, professor de design de engenharia da University of Cambridge, Reino Unido, e Roger Coleman, professor emérito de design inclusivo do Royal College of Art, em Londres.
Inclusive, Sam Waller – um pesquisador do Grupo de Design Inclusivo do Centro de Engenharia de Cambridge – usa as luvas de artrite no vídeo Bridging The Exclusion Gap para demonstrar o quão difícil uma ação tão simples quanto abrir um maço de Post-it pode ser para aqueles que vivem com a condição.
Waller também usa um par de óculos para simular problemas de visão, e outros pesquisadores usaram tecnologia imersiva, como simuladores de realidade virtual, para recriar a experiência de viver com “degeneração macular relacionada à idade, glaucoma, protanopia e retinopatia diabética”.

 

Rumo a ‘era da empatia’’

 

Estamos indo em direção à “era da empatia”, como Poppy Crum a apelidou – em que “a tecnologia saberá mais sobre nós do que nós mesmos”, mas também em que saberemos mais sobre cada um do que nunca.

“A tecnologia para o consumidor saberá mais sobre o nosso bem-estar mental e físico do que muitas visitas clínicas”. Poppy Crum

Ao juntar o aprendizado de máquina com a tecnologia em sensores e a grande quantidade de dados que se pode reunir, são oferecidas grandes oportunidades para os médicos, escreve a cientista. “Aqui estão apenas alguns outros exemplos de como isso pode acontecer”, observa ela.
“Ao combinar medicamentos com tecnologia empática, os médicos obtêm dados mais consistentes do paciente, mudando remédios e terapias com base em seus sinais”.
“Ou, semanas antes de você fazer uma cirurgia no joelho, seu cirurgião ortopédico pode coletar muito mais dados sobre seu modo de caminhar e de como usar seus joelhos de maneira que poderá te beneficiar de diferentes formas durante sua reabilitação na pós-fisioterapia”, continua.
Na Wired Health, Crum parecia ter convencido seu público de que a tecnologia artificial, juntamente com a IA, podem melhorar drasticamente nossas vidas, ao invés de prejudicá-las – uma conclusão que a cientista traz em muitos de seus artigos anteriores.
“IA é frequentemente temida porque as pessoas pensam que substituirá quem somos. Com a tecnologia empática, a IA pode nos tornar melhor, não nos substituir. Também pode garantir a nós e aos nossos médicos que as intervenções que eles prescrevem estão realmente resolvendo os problemas que temos.” Poppy Crum

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