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PESQUISAS DEMONSTRAM NÃO PRECISAMOS ESCOLHER: FILHOS OU A FELICIDADE

Publicado em: 23/05/2019

Seth J. Gillihan PL. D. – Psychology Today – EUA

Por que a maternidade geralmente diminui o bem-estar especialmente para as mães

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Muitos anos atrás, quando eu estava realizando pesquisas sobre memória, pedi aos participantes que escrevessem sobre qualquer evento de suas vidas. Quando analisei suas respostas, fiquei impressionado com quantas pessoas escolheram escrever sobre o nascimento de uma criança.
Anos depois, quando nosso primeiro filho nasceu, eu entendi: não há nada tão memorável e marcante quanto à chegada de uma nova pessoa. O estresse e a alegria do trabalho de parto e do parto em si aparecem em meio à instabilidade dos primeiros dias surreais, quando os pais e o bebê trabalham juntos para entender o que está acontecendo.
E em algum momento, para inúmeros pais, a felicidade é comprometida. O consenso por muitos anos foi que ao se tornarem pais haveria uma perda significativa da felicidade, enquanto estudos mais recentes sugeriram que os efeitos da parentalidade são mistos. Embora se tornar pai ou mãe possa prejudicar algumas partes da vida, obviamente pode melhorar outras.
Pergunte aos pais o que é difícil sobre ser pai ou mãe e você ouvirá temas semelhantes, conforme resumido em uma recente meta-análise:
• Mais chances de gerar emoções negativas, como frustração e preocupação.
• A falta de sono, especialmente quando as crianças são novas.
• Fadiga física por conta da natureza ininterrupta do trabalho.
• Menos tempo de qualidade e mais discussões com o parceiro.
• Tensão financeira associada ao pagamento de roupas infantis, alimentos, creches, atividades e, às vezes, mudança para uma casa maior em um distrito escolar melhor.
Em resumo, ser pai ou mãe é um trabalho desgastante e dispendioso, com custos físicos, emocionais e financeiros. É claro que essas dificuldades sempre vêm com avisos de que “eu não trocaria por nada”, “vale muito a pena”, etc., o que sugere um tipo de culpa sobre a possibilidade de preferir partes do estilo de vida anteriores a parentalidade.
Então, quando e por que ser pai ou mãe diminui nossa felicidade? As descobertas provenientes da pesquisa confirmam minhas observações clínicas e a própria experiência como pai: A parentalidade diminui o bem-estar na medida em que interfere em nossas necessidades psicológicas fundamentais. Essas necessidades, baseadas em anos de pesquisa de Richard Ryan e Edward Deci, são:
• Relação: ter vínculos positivos e significativos com outras pessoas.
• Competência: ter oportunidades para exercitar nossas habilidades e sentir que somos bons no que fazemos.
• Autonomia: ser livre para escolher nossas ações.
Quando somos capazes de satisfazer essas três necessidades, tendemos a ser mais felizes, mais saudáveis e mais produtivos. Como a parentalidade afeta nossa capacidade de satisfazer essas necessidades básicas?

Relação

A parentalidade tem efeitos complexos em nossos relacionamentos. O começo do relacionamento entre pais e filhos pode estabelecer uma conexão profunda que é diferente de qualquer outra, para o resto da vida dos pais. Ter filhos também pode levar a novas amizades, à medida que desenvolvemos relacionamentos com os pais dos amigos de nossos filhos.

Equilibrar esses efeitos positivos da parentalidade gera o desafio de manter os relacionamentos anteriores – em primeiro lugar com o parceiro. O tempo e a energia que foram direcionados um ao outro agora são canalizados em cuidar das crianças, muitas vezes restando pouco a oferecer ao parceiro. Acrescente privação de sono e dificuldades financeiras, e é possível que o casal comece a experimentar não apenas menos proximidade, mas também mais irritabilidade e conflitos.
Também pode ser um desafio manter outras amizades. Há chances dos amigos sem filhos terem dificuldade em entender por que você desapareceu, ou podem se cansar de ouvir sobre a mais recente conquista de seu filho (“Ela rolou!”). Nossos horários de sono também tendem a mudar drasticamente com a chegada de uma criança, já que eles geralmente dormem cedo e são madrugadores. Quando seus amigos sem filhos estão se preparando para o jantar, você pode estar bocejando e ansiando por dormir.

Competência

Todos nós gostamos de sentir que somos bons no que fazemos, e a parentalidade pode oferecer muitas oportunidades para praticar as novas habilidades necessárias para manter uma pessoinha viva. Podemos sentir uma sensação de realização após os primeiros dias com nosso primeiro filho, quando percebemos: “Eu posso fazer isso”.

À medida que nosso filho se desenvolve, temos mais oportunidades de exercer nossa competência: Ajudar as crianças a administrar suas emoções, navegar pelo complexo mundo dos relacionamentos no ensino fundamental, lidar com questões do sono e desenvolver planos de refeições para crianças, para citar apenas alguns exemplos.
Ao mesmo tempo, podemos experimentar uma queda em nosso senso de competência de outras maneiras. Teremos momentos em que não conseguiremos descobrir por que uma criança está chorando inconsolavelmente ou como uma criança ainda pode estar acordada. Nós perceberemos em retrospectiva – ou mesmo em tempo real – que não lidamos com um conflito de nosso filho da maneira mais produtiva. Nós perdemos a paciência. Duvidamos de nossos instintos sobre a saúde de nossos filhos.
Como se esses desafios inerentes não fossem suficientes, ainda recebemos críticas diretas ou implícitas de nossos próprios pais amigos e da mídia popular a respeito da forma que criamos nossos filhos. Quando se trata de criar filhos, todos têm uma opinião sobre o que é melhor. Ás vezes pode acontecer dos pais sentirem que talvez não estejam preparados para a criação dos filhos.

Autonomia

Das três necessidades psicológicas básicas, a autonomia é indiscutivelmente a mais afetada. Qualquer relacionamento restringe nossas escolhas de alguma forma – por exemplo, ter um parceiro normalmente significa que não podemos sair com outras pessoas e nem sempre escolher os programas que queremos assistir – e a perda de autonomia que acompanha a criança é enorme.

Considere uma simples viagem até a loja de conveniência para obter um pouco de leite. Antes das crianças, podíamos pegar uma jaqueta, entrar no carro, ouvir o rádio no caminho e entrar e sair da loja em 5 minutos. Quando uma criança pequena está envolvida, pode ser um desafio encontrar seus sapatos e jaqueta, sem mencionar o desgaste emocional de tentar colocá-los em uma criança que não coopera. Então, uma vez que você consiga sair pela porta – o que pode ser seu próprio inferno às vezes – há o banco do carro, outra batalha em potencial.
Finalmente, vocês dois estão em seus lugares, exaustos e infelizes, mas prontos para partir. (A essa altura, a sua versão sem filhos já estaria de volta com o leite.) Você liga o rádio e ouve um trecho intrigante no noticiário e, em seguida, seu filho diz que quer ouvir o CD de música dele. Você não tem fôlego para outra batalha, então coloca a música que seu filho quer, lembrando-se de procurar a notícia mais tarde, o que você vai acabar se esquecendo de fazer.
Na loja, há os inevitáveis 60 segundos que parecem uma eternidade enquanto você espera que seu filho saia do carro, o que ele insiste em fazer sozinho. Dentro da loja, você pega o leite e corre para o caixa, porque você precisa chegar em casa para preparar o jantar, e você percebe que está atrasado, e, como já faz um tempo desde o lanche, um ataque de birra da criança é quase inevitável. Voltando para o carro, há uma repetição do que houve mais cedo, e uma vez que você está em casa e precisa desesperadamente usar o banheiro, seu filho está levando um tempo incrivelmente longo para sair de seu assento do carro. Finalmente, quando você sente que está prestes a molhar suas calças, você a pega e a leva para dentro, enquanto ela grita e se agita em seus braços.
Quando temos filhos, nossas ações não são mais autônomas, pois toda decisão e toda atividade são afetadas por eles. Atividades diárias simples como comer, dormir, fazer exercícios e tomar banho não estão mais totalmente em nossas mãos, e grandes decisões, como onde moramos e o que fazemos para seguir uma carreira, podem ser alteradas quando se há filhos. Fins de semana e férias que costumavam servir para descontrair e recarregar se tornam aventuras familiares que podem fazer o trabalho parecer uma boa pausa.

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Efeitos mães vs pais

Uma pesquisa altamente divulgada de 2013 declarou que as crianças estão associadas a mais alegria do que à miséria. No entanto, a boa impressão do artigo observou que a parentalidade estava associada ao aumento da satisfação e felicidade apenas entre os pais.
Esse padrão é comum, baseado em pesquisas sobre parentabilidade, com mães em casais heterossexuais mais propensas a experimentar efeitos negativos da parentabilidade – e menos propensas a ter efeitos positivos – do que pais. Uma revisão recente nesta área incluiu estudos mostrando que, em comparação com os pais, as mães tendem a experimentar:
• Mais estresse e menor satisfação com a vida pessoal e familiar.
• Menos efeitos positivos
• Menor satisfação
• Um declínio maior na qualidade conjugal e aumento do sofrimento conjugal.
• Maior depressão (consistente com a maior incidência de depressão entre as mulheres em geral).
• Um declínio maior no tempo total de sono (o tempo de sono dos pais não mudou significativamente).
• Menos emoções positivas ao interagir com as crianças, provavelmente, em parte, porque os pais estão mais envolvidos em brincadeiras, enquanto as mães tendem a ser responsáveis pelas atividades menos divertidas, como fazer as crianças se vestirem e se alimentarem.
• “Ritmos sociais” menos consistentes – coisas como acordar e dormir, refeições, etc.
• Mais tempo em atividades relacionadas a crianças.
• Sem tempo suficiente para si (quase 4 de 5 mães).
• Muito mais estresse financeiro como pais solteiros (78% das mães e 18% dos pais).
Essas descobertas estão de acordo com um livro inovador chamado The Transition to Parenthood, de Jay Belsky e John Kelly, que acompanhou casais antes e depois da concepção, com bebês de até 3 anos de idade. Eles notaram que há de fato duas transições para a parentalidade para a maioria dos casais: dele e dela. Como Belsky e Kelly descreveram, a maioria dos homens rapidamente recupera muitas partes de sua vida antes da concepção: eles retornam ao trabalho como antes; seu sono melhora; eles abrem espaço para hobbies e amigos; eles se exercitam; e assim por diante. Em contraste, as vidas das mães, em média, mudam muito mais, com um realinhamento mais fundamental de seu tempo e energia para cuidar da criança. Consequentemente, os pais são mais propensos a satisfazerem suas necessidades psicológicas, enquanto as mães mais frequentemente sacrificam suas necessidades pelas da criança. (Obviamente, há exceções a essas tendências gerais.)
Grande parte do conflito que se segue à chegada de uma criança provém dessas experiências diferentes e discorda sobre onde cada pai ou mãe concentra seu tempo e energia. As mães tendem a ver seus parceiros como focados demasiadamente em si, enquanto os pais costumam ver suas parceiras como focadas excessivamente na criança.
Não é difícil entender como a parentalidade pode prejudicar as necessidades das mães. Uma mãe que está trabalhando por mais um “segundo turno” (ou terceiro) em casa terá menos tempo para se dedicar a outros relacionamentos. As mães que ficam em casa podem perder a satisfação de exercer sua competência no trabalho e se conformar com sua ocupação atual como sendo “apenas uma mãe” (mesmo reconhecendo que não há trabalho mais difícil ou mais importante). Mães que trabalham fora de casa podem sentir que estão decepcionando as pessoas em dois ambientes, enquanto seus chefes e famílias as pressionam por mais tempo. Elas também são mais propensas a terem que faltar ao trabalho para cuidarem de uma criança doente, levando a um maior conflito de papéis.

 

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Esperança para o bem-estar dos pais?

Parte do valor da pesquisa de Ryan e Deci sobre as necessidades humanas fundamentais é que, ao entendermos quais são nossas necessidades, temos mais chances de satisfazê-las. Se você descobriu que seu senso de relação, competência ou autonomia foi afetada depois de ter filhos, considere tentar uma dessas estratégias baseadas em evidências para melhor atender às suas necessidades:
1. Jogue com seus pontos fortes parentais. Em um estudo recente, os pais identificaram seus pontos fortes, bem como pontos menos desenvolvidos nos quais queriam trabalhar. Eles posteriormente sentiram um maior senso de competência como pais.
2. Jogue com os pontos fortes dos seus filhos. No mesmo estudo, os pais que praticaram a identificação e a valorização das forças de seus filhos também se sentiram mais competentes como pais e experimentaram emoções mais positivas.
3. Reflita sobre o que você fez bem. É fácil lembrar nossas decepções como pais e, provavelmente, é mais difícil recordar nossos sucessos. Considere escrever no final do dia três coisas que você fez bem como pai e mãe, não importa quão grande ou pequeno seja. Este tipo de exercício demonstrou ser útil para todos, inclusive para os pais.
4. Pratique a atenção plena. Estar no momento presente sem julgamento está ligado a uma maior satisfação das necessidades, bem como a uma maior conscientização de nossas necessidades. Não precisa de muito tempo – não são necessárias sessões de meditação prolongadas. Ao fazer pausas de vez em quando e daí realizar um levantamento interno de nossos pensamentos e emoções, diminuímos nosso estresse e nos damos uma chance de identificar o que precisamos – e possíveis maneiras de satisfazer nossas necessidades. Você pode começar com a Meditação da Respiração de Um Minuto. Na verdade, a prática da atenção plena pode não precisar de tempo algum quando praticamos simplesmente focando nossa atenção no que estamos fazendo.
5. Desafie seu pensamento. Às vezes nossos pensamentos podem nos levar ao erro. Por exemplo, podemos acreditar implicitamente que “devo sempre colocar as necessidades do meu filho à frente das minhas”. Viver de acordo com essa crença pode não apenas interferir no cumprimento de nossas próprias necessidades, mas também pode levar ao ressentimento de sacrificar o nosso próprio bem-estar, ou até culpa se sentirmos que não estamos fazendo isso perfeitamente.
6. Faça um plano. Se você reconhecer que está lutando para cumprir qualquer uma das três necessidades psicológicas básicas, reserve alguns minutos para pensar em maneiras pelas quais você pode satisfazer uma de suas necessidades nesta semana. Se você está em um relacionamento, considere envolver seu parceiro no processo. Faça um plano específico para atividades vitais que você deseja adicionar à sua agenda e coloque os planos em seu calendário.
Para os pais que estão intimamente envolvidos na vida de seus filhos, a parentalidade nunca será um esforço fácil ou sem sacrifícios – nem deveria ser. Continuar a cadeia da vida não é uma coisa pequena. E quando estamos dispostos a considerar nossas próprias necessidades ao lado de nossos filhos, todos se beneficiarão: nossos parceiros, nós mesmos e até nossos filhos.

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