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ÁRVORE GENEALÓGICA DE 400 MILHÕES DE PESSOAS MOSTRA QUE A GENÉTICA TEM UMA INFLUÊNCIA LIMITADA QUANTO À LONGEVIDADE

Publicado em: 23/03/2019

O estudo do enorme conjunto de genealogia do Ancestry.com sugere que períodos de vida semelhantes entre os cônjuges podem ter superado as estimativas da herdabilidade quanto ao tempo de vida.

Por Genetics Society of America – EUA

 

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De acordo com uma análise recente de um conjunto de árvores genealógicas de mais de 400 milhões de pessoas, ainda que a longevidade tenda a ocorrer em famílias, a genética tem muito menos influência na expectativa de vida do que se costumava pensar. Os resultados sugerem que a herdabilidade no que diz respeito ao tempo de vida está bem abaixo das estimativas anteriores, o que não levou em conta nossa tendência de selecionar parceiros com características semelhantes às nossas. A pesquisa, realizada pela Calico Life Sciences e Ancestry, foi publicada na GENETICS, uma revista acadêmica da Genetics Society of America.

“Podemos potencialmente aprender muitas coisas sobre a biologia do envelhecimento a partir da genética humana, mas se a relação da hereditariedade com o tempo de vida for baixa, isso diminui nossas expectativas sobre quais tipos de coisas podemos aprender e o quão fácil seria”, diz Graham Rubi, autor do estudo. “Isso ajuda a contextualizar perguntas que os cientistas que estudam o envelhecimento poderão fazer de fato”.

O empregador de Ruby, Calico Life Sciences, é uma empresa de pesquisa e desenvolvimento cuja missão é entender a biologia do envelhecimento. Eles se juntaram à cientistas do recurso de genealogia on-line Ancestry, liderado pela diretora científica Catherine Ball para usar dados de linhagens disponíveis publicamente do Ancestry.com a fim de estimar a herdabilidade relativa ao tempo de vida do ser humano.

A herdabilidade mede o quanto a variação de uma característica – neste caso, tempo de vida – pode ser explicada por diferenças genéticas, em oposição a diferenças não-genéticas como estilo de vida, fatores socioculturais e acidentes. As estimativas prévias da hereditariedade da vida humana variavam entre cerca de 15 a 30%.

“A parceria com a Ancestry permitiu que este novo estudo tivesse insights mais profundos ao reunir um conjunto de dados muito maior do que qualquer estudo anterior de longevidade”, disse Ball.

A partir de 54 milhões de árvores genealógicas públicas geradas por assinantes, representando seis bilhões de ancestrais, o Ancestry removeu os registros redundantes e as de pessoas ainda vivas, unindo as gerações remanescentes. Antes de compartilhar os dados com a equipe de pesquisa da Calico, o Ancestry retirou todas as informações identificáveis de cada indivíduo, deixando apenas o ano de nascimento, ano de óbito, local de nascimento e conexões familiares que compõem a própria estrutura da árvore.

Eles acabaram reunindo um conjunto de linhagens que incluía mais de 400 milhões de pessoas – em grande parte americanos de descendência europeia – cada um ligado a outro tanto por pai e filho como por marido e esposa. A equipe foi, então, capaz de estimar a herdabilidade da árvore, examinando a semelhança do tempo de vida entre os parentes.

Usando uma abordagem que combina modelagem matemática e estatística, os pesquisadores se concentraram em parentes que nasceram em todo o século 19 e início do século 20, encontrando estimativas de hereditariedade em irmãos e primos de primeiro grau que eram mais ou menos a mesma, como relatado anteriormente. Mas, como também foi observado em alguns dos estudos anteriores, eles observaram que o tempo de vida dos cônjuges tendia a ser correlacionado – eles eram mais semelhantes, na verdade, do que em irmãos de sexo oposto. Essa correlação entre os cônjuges pode ocorrer devido a muitos fatores não genéticos que acompanham a vida na mesma casa – seu ambiente compartilhado.

Mas a história realmente começou a tomar forma quando os autores compararam diferentes tipos de sogros, alguns com relacionamentos bastante remotos. O primeiro indício de que havia algo a mais do que a genética ou o ambiente compartilhado foi a constatação de que os cunhados e cônjuges de primos tinham correlações quanto a expectativa de vida – apesar de não serem parentes de sangue e geralmente não compartilharem os mesmos lares.

A quantidade do conjunto de dados permitiu que a equipe ampliasse as correlações de longevidade para outros tipos de relacionamentos mais remotos, incluindo os cônjuges de tios, primos de segundo grau e diferentes categorias de irmãos dos cunhados. A descoberta de que agregados ainda mais distantes de uma família tinham o tempo de vida semelhante mostrou que algo a mais estava em jogo.

Se eles não compartilham as origens genéticas, nem os domicílios, o que poderia explicar a similaridade na vida entre indivíduos com esses tipos de relacionamento? Ao voltar ao impressionante conjunto de dados, os pesquisadores puderam realizar análises que detectaram o acasalamento preferencial.

“O que o acasalamento preferencial significa é que os fatores associados ao tempo de vida tendem a ser muito semelhantes entre os parceiros”, diz Ruby.Em outras palavras, as pessoas tendem a selecionar parceiros com características semelhantes às suas – neste caso, o tempo de vida.

Claro, você não pode adivinhar facilmente a longevidade de um parceiro em potencial. “Geralmente, as pessoas se casam antes que um deles morra”, brinca Ruby. Como você não pode contar a expectativa de vida de alguém antecipadamente, o acasalamento preferencial em humanos deve ser baseado em outras características.

A base dessa escolha pode ser genética ou sociocultural – ou ambas. Um exemplo não genético:

se a renda influencia o tempo de vida, e as pessoas ricas tendem a se casar com outras pessoas ricas, isso levaria à longevidade correlacionada. O mesmo ocorreria com as características mais controladas pela genética: se, por exemplo, as pessoas altas preferem os cônjuges mais altos e a altura estiver correlacionada de alguma forma com o tempo de vida, isso também acresceria as estimativas de herdabilidade referente ao tempo de vida.

Ao corrigir esses efeitos do acasalamento preferencial, a nova análise descobriu que a herdabilidade quanto ao tempo de vida provavelmente não é superior a sete por cento, talvez seja até menor.

O resultado? A duração do tempo de vida tem menos a ver com seus genes do que você imagina.

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