Controvérsia

Maconha: afinal, faz bem ou mal?

Publicado em: 13/06/2018

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos EUA, as pessoas fumam maconha para tratar doenças há menos 3 mil anos. No entanto, a Food and Drug Administration não considera a maconha segura ou eficaz no tratamento de qualquer condição médica

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David Railton para o Medical News Today

Checagem de fatos por Jasmin Collier

 

A tensão entre a crença generalizada de que a maconha é um tratamento eficaz para uma ampla variedade de doenças e a falta de conhecimento científico sobre os efeitos foi exacerbada nos últimos tempos pelo movimento pró-legalização. Nos Estados Unidos, 29 estados e o Distrito de Columbia já disponibilizaram a maconha para fins medicinais – e, em alguns estados, até mesmo recreativos.
Um estudo recente publicado na revista Addiction também mostrou que o uso de maconha está aumentando bastante nos Estados Unidos, embora esse aumento possa não estar ligado à legalização da maconha nos estados participantes. No entanto, o aumento no uso tem causado preocupações em termos de saúde pública.
Neste artigo, examinamos as evidências científicas comprovadas com relação à maconha, pesando os benefícios médicos contra os riscos à saúde associados, numa tentativa de responder à simples pergunta: a maconha é, afinal, boa ou ruim?

Quais são os benefícios médicos da maconha?
Ao longo dos anos, a pesquisa produziu resultados que sugerem que a maconha pode ser benéfica no tratamento de algumas condições. Estes estão listados abaixo.

Dor crônica
No ano passado, uma pesquisa da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina norte-americana avaliou mais de 10 mil estudos científicos sobre os benefícios médicos e os efeitos adversos da maconha. Uma área que o relatório examinou atentamente foi o uso da maconha medicinal para tratar a dor crônica.
Esse tipo de dor é uma das principais causas de deficiências, e afeta mais de 25 milhões de adultos nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que a maconha, ou outras substâncias que contêm os cannabinoids, ingredientes ativos da maconha, ou outros compostos que atuam nos mesmos receptores no cérebro – são realmente eficazes no alívio da dor crônica.

Alcoolismo e toxicodependência
Outra pesquisa abrangente de evidências sobre maconha, publicada no ano passado na revista Clinical Psychology Review, revelou que o uso de maconha pode ajudar pessoas com dependência alcóolica a combater seus vícios. Mas essa descoberta pode ser controversa. A pesquisa da Academia Nacional de Ciências sugere que o consumo de maconha na verdade aumenta o risco de abuso e dependência de outras substâncias.
Além disso, quanto mais alguém fumar maconha, maior a probabilidade de desenvolver um problema com o uso dessa maconha. Ou seja, indivíduos que começam a usar a droga ainda jovens também têm maior risco de desenvolver dependência e outros problemas relacionadas ao uso.

Depressão, transtorno de estresse pós-traumático e ansiedade
A pesquisa da Clinical Psychology Review avaliou toda a literatura científica já publicada que tenha investigado o uso de maconha para tratar sintomas de doenças mentais. As provas, até o momento, sugerem que a maconha poderia, sim, ajudar a tratar algumas condições de saúde mental.
Os cientistas autores da pesquisa encontraram evidências que apoiam o uso da maconha para aliviar a depressão e os sintomas do transtorno de estresse pós-traumático. Dito isto, eles também advertem que a maconha não é um tratamento adequado para algumas outras condições de saúde mental; como transtorno bipolar e psicose.
A pesquisa indica indícios que sugerem que a maconha pode aliviar os sintomas de ansiedade, mas, novamente, isso é contradito pela pesquisa da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, que descobriu que os usuários regulares de maconha podem, na verdade, estar aumento o risco de ansiedade.
Câncer
Provas científicas sugerem que os cannabis oral é eficaze contra náuseas e vômitos causados pela quimioterapia, e alguns estudos menores descobriram que a maconha defumada também pode ajudar a aliviar esses sintomas.
Já pesquisas sobre células cancerígenas sugerem indícios de que a maconha pode retardar o crescimento ou até matar alguns tipos de câncer. No entanto, estudos que testaram essa hipótese em humanos revelaram que, embora o cannabis sejam um tratamento seguro, não é realmente eficaz no controle ou cura do câncer.
Esclerose múltipla
O uso a curto prazo de maconha pode melhorar os sintomas de espasticidade em pessoas com esclerose múltipla, mas os efeitos positivos foram considerados “modestos”.

Epilepsia
Outro estudo publicado em 2017 mostrou que um composto de maconha chamado canabidiol pode ser eficaz para aliviar convulsões entre crianças com síndrome de Dravet, que é uma forma rara de epilepsia. As convulsões nessa síndrome são prolongadas, repetitivas e potencialmente letais. De fato, 1 em cada 5 crianças com síndrome de Dravet não atinge a idade de 20 anos.
No estudo, 120 crianças e adolescentes com síndrome de Dravet, todos com idade entre 2 e 18 anos, foram aleatoriamente designados a receber uma solução oral de canabidiol ou um placebo por 14 semanas, juntamente com a medicação usual.
Os pesquisadores descobriram que as crianças que receberam o canabidiol passaram de cerca de 12 crises por mês para uma média de seis crises por mês. Três das crianças que receberam canabidiol não sofreram nenhuma convulsão.
Já as crianças que receberam o placebo também tiveram redução nas convulsões, mas foi mais ligeiro – o número médio de convulsões diminuiu de 15 por mês, antes do estudo, para 14 convulsões por mês durante o estudo. Os pesquisadores dizem que essa redução de 39% na ocorrência de ataques fornece fortes evidências de que o composto pode ajudar as pessoas que vivem com a síndrome de Dravet, e que a pesquisa realmente tem os primeiros dados científicos rigorosos para demonstrar isso.
No entanto, o estudo também encontrou uma alta taxa de efeitos colaterais ligados ao canabidiol. Mais de 9 em 10 das crianças tratadas com a substância experimentaram efeitos colaterais – mais comumente vômito, fadiga e febre.

Quais são os riscos para a saúde da maconha?
No outro extremo do espectro está a pletora de estudos que encontraram associações negativas do uso de maconha à saúde. Eles estão listados abaixo.

Saúde mental
Acredita-se que o uso diário de maconha exacerba os sintomas existentes do transtorno bipolar entre pessoas que têm o problema. No entanto, o relatório da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA sugere que entre as pessoas sem histórico da doença, há apenas evidências limitadas de uma ligação entre o uso de maconha e o desenvolvimento do transtorno bipolar.
Evidências moderadas sugerem que usuários regulares de maconha têm mais probabilidade de ter pensamentos suicidas, e há um pequeno aumento no risco de depressão entre usuários de maconha. O uso da substância é suscetível a aumentar o risco de psicoses, incluindo a esquizofrenia. Mas uma descoberta curiosa entre pessoas com esquizofrenia e outras psicoses é que um histórico de uso de maconha está ligado, também, a um melhor desempenho em testes que avaliam aprendizado e memória.

Câncer de testículo
Embora não haja evidências que sugiram algum vínculo entre o uso de maconha e o aumento do risco para a maioria dos cânceres, a Academia Nacional de Ciências encontrou algumas evidências que sugerem um aumento do risco para subtipos de crescimento lento do câncer testicular.

Doenças respiratórias
O consumo regular de maconha está ligado ao aumento do risco de tosse crônica, mas as pesquisas alegam que “não está claro” se fumar maconha piora a função pulmonar ou aumenta o risco de doença pulmonar obstrutiva crônica ou asma. Um estudo de 2014 que explorou a relação entre o uso de maconha e a doença pulmonar sugeriu que era plausível a noção de que fumar maconha pudesse contribuir para o câncer de pulmão, embora não haja vínculos realmente conclusivos entre os dois.
Os autores desse estudo – publicado na revista Current Opinion in Pulmonary Medicine nos Estados Unidos – concluem: “há evidências inequívocas de que fumar maconha habitual ou regular não é inofensivo. Uma precaução contra o uso regular e pesado de maconha é, portanto, prudente”.
“O uso medicinal de maconha provavelmente não é prejudicial aos pulmões em baixas doses cumulativas”, acrescentam, “mas o limite de dose precisa ser definido. O uso recreativo não é o mesmo que uso medicinal e deve ser desencorajado”.

Então, afinal, a maconha é boa ou ruim para a saúde?
Há evidências que demonstram tanto danos quanto benefícios para a saúde com relação à maconha. No entanto, apesar do surgimento nos últimos dois anos de pesquisas muito abrangentes e atualizadas de estudos científicos que avaliaram os benefícios e malefícios da droga, fica claro que são necessárias muito mais pesquisas para determinar completamente as implicações para a saúde pública da produção crescente de maconha.
Muitos cientistas e órgãos de saúde – incluindo a American Cancer Society (ACS) – apoiam a necessidade de mais pesquisas científicas sobre o uso de maconha e canabinóides para tratar condições médicas. No entanto, há um obstáculo para isso: a maconha é classificada como uma substância controlada pela Drug Enforcement Administration no país, que impede o estudo da maconha e dos canabinóides por meio da imposição de condições muito rígidas aos pesquisadores que se proponham a trabalhar na área.
Os americanos que moram em estados onde o uso medicinal de maconha é legal precisam considerar, juntamente aos médicos, todos os fatores cuidadosamente com relação a suas doenças em específico, além do histórico de saúde de cada um, antes de optar por utilizar maconha como medicamento. Por exemplo, embora haja alguma evidência para apoiar o uso da maconha para o alívio da dor, certamente você deve evitar a maconha se tiver um histórico de problemas de saúde mental.
Lembre-se de sempre falar com seu médico antes de tomar um novo medicamento.

 

Nota da redação da Residenciais
No Brasil, o uso de maconha é proibido por lei em todos os estados. No entanto, o tema é controverso. A maconha medicinal já é uma realidade no País: mais de 78 mil unidades de produtos à base da planta foram importados desde que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso terapêutico de canabidiol em janeiro de 2015. O canabidiol (CBD), um dos principais elementos ativos da maconha, até então estava na lista de substâncias proibidas pela agência reguladora.
Com o desenvolvimento de pesquisas sobre seu uso para tratamento dos sintomas de diversas doenças, a Anvisa reconheceu o potencial para tratamentos e colocou o composto na lista de substâncias controladas, abrindo caminho para sua importação e para que laboratórios aprofundassem os estudos sobre o tema. O CBD normalmente é vendido em forma de um óleo extraído da planta da maconha, a Cannabis, por meio de um processo artenasanal.
Pesquisas do Datafolha, divulgadas em janeiro deste ano, mostram que a maioria dos brasileiros adultos segue favorável à proibição da maconha, porém a taxa recuou para o patamar mais baixo da série de toda a história no País, iniciada em 1995. Dois em cada três brasileiros adultos (66%) declararam que fumar maconha deveria continuar sendo proibido por Lei. Para 32%, fumar maconha deveria deixar de ser crime, 1% não se posicionou e 2% não opinaram.

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