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Evasão nas universidades, a frustração de trilhões de dólares

Publicado em: 10/11/2017

Gera um incomensurável prejuízo indireto na economia, na autoestima dos indivíduos, além de colocar em cheque a educação. Como contraponto fomos a Harvard, MIT, Princeton e Duke onde a evasão praticamente inexiste

 

Thais Gargantini

 

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A educação já ocupa um lugar destacadíssimo na sociedade civilizada há séculos, mas na nossa sociedade moderna e tecnológica, mais e mais, potencializa-se exponencialmente como a solução de quase tudo, a nível individual, coletivo e social. Porém, paradoxalmente, a mesma educação salvadora está sub judice em seus bastidores, pois não consegue reter seus alunos, eles a abandonam em números desconcertantes. A chamada evasão é o grande fantasma da educação, que aterroriza
instituições de ensino (em especial universidades), pais, alunos,
governos, em quase todo o mundo.
O Profº Roberto Leal Lobo e Silva Filho, ex-reitor da USP, acadêmico, escritor e especialista em consultoria para Instituições de Ensino Superior (IES) publicou “A evasão é um dos maiores problemas do Ensino Superior, público ou privado. Representa uma perda social, de recursos e de tempo de todos os envolvidos, sendo motivos de críticas de especialistas e de estudiosos da Educação e da Economia. Nas IES públicas, a desistência dos alunos ao longo do curso é um dos assuntos que mais desperta preocupação devido à ociosidade e desperdício que representa para o sistema, que pode, inclusive, indicar deficiências de ordem acadêmica e de medida de efetividade do ensino”.
Exatamente nas entrelinhas percebe-se que o “buraco é mais embaixo” este fenômeno pode estar questionando o sistema educacional mundial e, até mesmos, os valores da sociedade atual. Os números sobre evasão de uma maneira geral são assombrosos e permanecem à sombra. Na verdade, os estudos sobre a evasão no Brasil e na maioria dos países, são poucos, imprecisos e fragmentados. Ainda assim, pode-se estimar que a nível mundial, o desperdício com a evasão escolar chegaria a alguns trilhões de dólares criando um incomensurável prejuízo indireto na economia e na autoestima dos indivíduos. Realmente um efeito devastador em cascata. Os milhões de alunos evadidos criam um círculo vicioso: eles abandonam a educação ou até a rejeitam, sentem-se perdedores, o mercado os desvaloriza, o conhecimento não é passado a frente, a economia e a sociedade perdem e ao final, a civilização estanca uma boa parcela da sua evolução.

EVASÃO NAS UNIVERSIDADES

EVASÃO NO BRASIL: ATÉ 30% EM UNIVERSIDADES PÚBLICAS
Segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) há no Brasil
11.174.282 vagas para alunos de graduação, sendo que quase 72% delas estão preenchidas (8.027.297 matriculados), 11,6% das matrículas estão trancadas e 15,5% dos alunos foram desvinculados do curso de graduação (abandonaram).

Somando o total de matrículas trancadas e alunos que abandonaram o curso temos aproximadamente 27% de vagas
inativas. Ao confrontar o número de matriculados com o número de alunos que abandonaram o curso, a porcentagem sobe para 21,6% e o número de trancamentos sobe para 16,1%. Chegando a quase 38%.

A porcentagem de desistentes varia também de acordo com o tipo de graduação. Nos cursos do setor privado, a desistência é, em média, 24%, podendo chegar a muito. Enquanto que no setor público as desistências giram em torno dos 15%.
Porém, cursos como o de engenharia, matemática, física entre outros da área das exatas costumam ter grande evasão por conta do desestímulo ligado a dificuldade do curso. Na UNICAMP, por exemplo, a taxa de evasão, em 2012, era de 25%, bem maior do
que a média dos 15%.
Normalmente os cursos com mais vagas de desistentes são os que têm menor procura durante o processo seletivo. “Nos cursos com baixa demanda, os índices de desistência chegam a 30%”, disse Maurício Klenke, docente da Unicamp e estudioso do tema. Nas universidades particulares estima-se que eles podem ultrapassar 70%. Estes números tornam-se ainda mais graves se levarmos em conta que são poucos brasileiros que chegam a ser universitários, apenas 17,6% dos jovens até 24 anos. “Já nos EUA a taxa é de 50%, na Argentina e Colômbia, países vizinhos, a taxa é maior do que 30%”, diz Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp).

DESPERDÍCIO DE 17 BILHÕES ANUAIS NO BRASIL

A pesquisa do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia em 2016 revelou que os cursos de graduação gastam em torno de 10 De acordo com o Instituto, 1.735.546 alunos cancelaram suas matrículas em 2016, gerando então um prejuízo total das instituições de mais de 17 bilhões no ano, sendo 14,5 bilhões nas universidades particulares e 2,7 bilhões em universidades públicas, neste caso dinheiro que foi investido no aluno pelo contribuinte.mil reais por ano com cada aluno.

EUA: MAIOR EVASÃO DOS PAÍSES INDUSTRIALIZADOS

O EUA, o maior centro universitário e de conhecimento do mundo, que detém mais da metade dos cientistas do planeta,
surpreendentemente possui altíssimas taxas de evasão escolar.

Harvard analisou dados de uma pesquisa da Organization for Economic Cooperation and Development (OECD). De acordo com essa análise o Estados Unidos é o país com o maior índice de evasão acadêmica dentre os países industrializados.

Em 2011, a Harvard Graduate School of Education realizou um estudo intitulado “Pathways to Prosperity” que revelou que apenas 56% dos estudantes completam os 6 anos do curso universitário, que lhes dá o bacharelado.

INÚMERAS CAUSAS

Um fator que aumenta o número de alunos que evadem o curso de graduação é a ausência de orientação vocacional durante o
ensino médio. “O Brasil tem apenas 8% dos alunos do ensino médio em programas vocacionais. A falta de orientação contribui para que exista uma desistência significativa dos jovens que ingressam no nível superior”, disse o Ministro da Educação, Mendonça Filho.

Para o Ministério da Educação (MEC), uma das principais medidas que podem minimizar a evasão estudantil durante a graduação é oferecer apoio aos estudantes, principalmente no início do curso. A desistência vai além da decepção com a carreira escolhida. A falta de condições, financeira ou acadêmica, para seguir na universidade leva os alunos a desistirem do ensino superior.

“As causas são múltiplas. O importante é não deixar que um aluno pare de estudar por falta de condições. Precisamos ampliar a assistência e também criar programas de monitoria, especialmente no primeiro ano, quando muitos têm dificuldades nas disciplinas básicas”, afirma o ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Luiz Cláudio
Costa.
Segundo um relatório de Harvard, observamos que as principais razões para abandonar a universidade são semelhantes às do Brasil. Muitas vezes o estudante não está preparado para lidar com as demandas de estudo, família e emprego, além do próprio custo da universidade.

EVASÃO NAS UNIVERSIDADES

PORQUE HARVARD, MIT, PRINCETON E DUKE SÃO EXCEÇÕES

Fomos visitar algumas Universidades que são um oásis de baixa evasão nos EUA. Selecionamos, as universidades de, Harvard, MIT, Princeton e Duke, todas com índice de evasão que giram em torno de menos de 3%, marca que nem o curso de medicina gratuito mais disputado do Brasil consegue.

Fundada em 1746, possui vários professores com prêmios Nobel e segundo ranking da Center for World University Rankings (CWUR) está na 9 posição do mundo e 7 dos EUA. Estivemos também na Duke University, fundada em 1924 com ex-alunos que ganharam 12 prêmios Nobel e reconhecida na área de Inteligência Artificial, além das tradicionalíssimas MIT e Harvard
que dispensam descrições.

Mas o mais interessante para nossa matéria é que cada uma das quatro, à sua maneira, trabalham intensamente as causas acima expostas da evasão: Possuem programa intenso de apoio aos estudantes, em especial aos calouros, proporcionando-lhes integração, moradia, instalações de qualidade, alimentação saudável, transporte e até diversão. Disponibilizam ainda financiamento a longo prazo e ou bolsas de estudo com premiações por desempenho. Possibilitam e exigem imersão e concentração total do aluno obrigando-os inclusive a morarem no campus pelo menos nos primeiros anos.

Mas vão além, seu cardápio curricular é extremamente flexível. Principalmente no primeiro ano o estudante consegue escolher as matérias que mais se enquadram suas aptidões e desejos. Existem algumas restrições e regras a serem seguidas, mas predomina a livre escolha da grade curricular. Isso faz com que os alunos acabem tendo uma grande motivação para estudar. Ao escolher suas matérias eles ficam mais envolvidos com a disciplina, se aplicam mais e conseguem atingir os níveis de exigência da universidade. E claro, em todas o grande prestígio delas é enaltecido, seduzindo e motivando seus alunos.
Temos que refletir e estar prevenido frente a este tema, pois nossos filhos ou nós mesmos, temos grande chance de sermos vitimados pela escolha errada da universidade que pode gerar mais que um prejuízo financeiro, uma frustração por toda uma vida.

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