Educação

A Difícil Escolha da Escola

Publicado em: 24/07/2017

Saber ouvir a opinião das crianças e ter uma comunicação aberta e descontraída é a chave

para a escolha certa

 

reuniao

 

Rose Hardy – Reino Unido

 

Em 1967, os psiquiatras Thomas Holmes e Richard Rahe examinaram os registros médicos de mais de cinco mil pacientes como forma de determinar se os eventos estressantes podem causar doenças. Os pacientes foram convidados a priorizar em uma lista de 43 eventos de vida, quais os que mais tinham causado estresse com base em uma pontuação relativa. Concluiram que começar a estudar em uma nova escola correspondia ao número 27 entre as causas de maior estresse durante a vida. Meio século depois, é provável que a escolha de uma escola ainda esteja nessa lista – e ainda muito mais perto do topo.

“A escola é um assunto emotivo; alguns adultos ainda não conseguem pisar na sua antiga escola”

O estresse que muitos pais sentem ao decidir qual escola é a certa para os filhos parece também crescer a cada ano. O momento de escolher uma escola é quando os pais refletem de forma ampla e complexa – não só em termos da educação acadêmica, mas também da experiência de infância como um todo de seus filhos. E mais, os pais também podem refletir sobre a sua própria experiência de quando eles eram alunos, o que amaram ou detestaram e como foram formados. A escola é um assunto emotivo; alguns adultos ainda não conseguem pisar na sua antiga escola, enquanto outros têm memórias douradas de seus dias escolares. Tudo isso se funde quando os pais selecionam uma para seus filhos.

“Mas para mim, há um aspecto muitas vezes mal administrado: a interpretação da decisão da criança pela escola”

Muito já foi escrito para ajudar os pais na escolha de uma escola. Mas para mim, há um aspecto que muitas vezes é importante mas mal administrado. Trata-se da interpretação da decisão da criança sobre a escola: as crianças estão tendo mais poder do que nunca ao escolher, diferente dos dias em que os pais selecionavam uma escola sem qualquer conversa com a criança. Estamos todos familiarizados com os pais que vão ao outro extremo ao se descreverem como os “melhores amigos” de seu filho e, nesses casos, em particular, pode existir uma supervalorização da criança na tomada das decisões. Temos que ter uma percepção apurada para compreender a real avaliação que a criança faz da nova escola. A avaliação dela é importantíssima, mas temos que filtrar, entrar no seu íntimo, desdobrar as verdadeiras causas dos seus desejos.

Isso não é fácil, principalmente neste mercado competitivo de escolas, onde cada uma monta planos de conquista, de pais e alunos potenciais, de forma cada vez mais sofisticada e agressiva. As escolas para seduzirem criam atividades mirabolantes que chegam a rivalizar com os melhores entretenimentos do mercado de consumo. Vale quase tudo para atrair pais e alunos, estreias de espetáculos, estigmatizar o lápis e a borracha, montar uma brinquedolãndia e talvez, em breve, presentearão com cachorros também?!

“É difícil fingir bons relacionamentos na sala de aula e as crianças são tão intuitivas quanto os adultos, se não mais”

Por isso devemos ponderar as comuns avaliações pela escola do futuro aluno que podem lhe dar uma sensação muito boa sobre uma escola. No entanto, esta não é toda a verdade e os pais devem estar conscientes de que a percepção de uma escola sobre seus filhos é apenas uma parte do processo de tomada de decisão.

Claro que as prioridades dos pais ao escolherem uma escola podem ser muito diferentes da prioridade dos seus filhos. Para muitos candidatos de mais de 11 anos, um brownie de chocolate no primeiro recreio pode lhe parecer uma ótima escola. Muito distante disso, para os pais, ensino de alta qualidade e liderança forte pode ser crucial. É raro que uma criança avalie o ranking da escola em relação aos exames públicos, no entanto, eles podem sim, sentir se a instituição é a certa, mais que os pais, ao visitar as salas de aula, conversar com a equipe e os alunos. E certamente os pais devem visita-la com seus filhos em mais de uma ocasião e se envolver com o ambiente e professores. É difícil fingir bons relacionamentos na sala de aula e as crianças são tão intuitivas quanto os adultos, se não mais, sentem a falsidade na vivência. As crianças podem estar menos inclinadas a gastar seu tempo cruzando diferentes planilhas comparativas de escolas, no entanto elas conhecem uma escola feliz e saudável ao examinar os seus banheiros, as suas latas de lixo, a gama de atividades extracurriculares e a atmosfera geral da instituição.

“Escolher uma escola tem que ser uma empreitada divertida, emocionante, ao invés de ser carregada de ansiedade e temores desnecessários”

Escolher uma escola envolve a colocação de muitas perguntas e as crianças fazem perguntas diferentes, que também podem ser válidas. Ouvir as dúvidas do seu filho sobre uma escola pode ser muito útil para identificar suas preocupações e suas prioridades. É fundamental existir um diálogo permanente neste processo e criar um clima descontraido. Escolher uma escola tem que ser uma empreitada divertida, emocionante, ao invés de ser carregada de ansiedade e temores desnecessários.

A questão da pressão dos amigos faz parte na escolha de uma escola para pais e filhos. Alguns pais querem sentir que estão escolhendo a escola “certa” no julgamento de seu círculo social. Mas nenhum pai sensato se propõe a escolhe-la puramente com base nesse aspecto. Embora algumas publicações gostem de destacar o valor esnobe de certas instituições, o pai sensível deve rejeitar essas idéias e se concentrar objetivamente nos fatos. Embora seja rídiculo que os pais escolham com base no que os vizinhos possam dizer, é um fator muito importante para as crianças. As crianças querem ir a uma escola que é classificada por seus pares e, o mais importante, onde seus amigos também estão indo.

“Mudança de escola pode apresentar muitos desafios para as crianças, mas fazer amigos é uma das menores”

Os pais sabem melhor que ninguém como seu filho irá lidar com uma escola sem nenhum dos seus antigos colegas, mas nunca subestime o valor para os adolescentes de ter um grupo de amigos; quando tudo dá errado na escola, não há nada mais confortante que ter um amigo na sala de aula. A alternativa de poder passar o fim de semana com um colega que está em outra escola e compartilhar as aflições da semana ou os problemas das últimas amizades pode ser muito saudável   e dar uma perspectiva maior às experiências das crianças na escola, mesmo que não a percebam! Mudar de escola pode apresentar muitos desafios para as crianças, mas fazer amigos é uma das menores. Se o seu filho está indo para uma escola onde ele não conhece ninguém, isso pode ser uma oportunidade para expandir seu círculo de amizades e também se reinventar. O novo grupo não terá ideias préconcebidas sobre ele e ele pode ser aquele “superesportivo” ou “estudioso acadêmico” que sempre quis ser, sem que todos comentem a mudança. Para algumas crianças, uma mudança de grupo pode ser uma coisa muito boa se o atual contexto não estiver sendo útil para o seu progresso vivencial e acadêmico. Compreensivelmente, a maioria das crianças está interessada em mudar de escolas com seus amigos, mas os pais têm um papel importante em fazer seu filho se sentir confiante sobre as oportunidades para novas amizades. Deixar a sua ansiedade paterna a mostra é a última coisa que os seus filhos precisam.

Na minha escola, fico impressionado com a rapidez com que novos alunos fazem amigos e são incorporados em grupos de amizades. Os pais devem conversar com a escola nova de seus filhos e saber se eles possuem preocupações sobre o aspecto social do novo aluno isolado. Devem descobrir se a nova instituição trabalha duro nessa transição e investe em comunicação para tornar o ambiente mais receptivo e relaxado possível com os novos pais e os novos alunos. Está cada vez mais comum diretores das escolas fazerem contato com os novos alunos em seu próprio ambiente assim que começam na nova escola.

Em suma, as boas escolas devem destacar com os novos pais o que é decisivo, uma forte parceria de três vias: o lar, a escola e os alunos. Esta parceria pressupõe a comunicação aberta e relaxada entre essas três partes. Com esta postura a melhor escolha da escola certamente acontecerá. Claro, que dentro desse clima, as crianças devem estar envolvidas no processo e suas percepções e opiniões muito bem avaliadas.

Rose Hardy , diretora da consagrada St Margaret’s School  fundada em 1846 – Escócia – Reino Unido

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