arquitetura e construção

Interromper o aquecimento global

Publicado em: 4/05/2016

Segundo o arquiteto, do arrojo ecológico Vincent Callebaut, basta focar na economia circular onde tudo é reciclado indefinidamente e demonstrado nos seus projetos

 

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Por Catherine Calvet

Conhecido como o bioarquiteto, este jovem belga, com apenas 39 anos, já é premiadíssimo e mundialmente famoso. 

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Pergunta – Você enfatiza a natureza das geracões no seu trabalho… 

Vincent Callebaut – Sim, aos 20 anos nossa geração foi condenada a aguardar o irremediável fim do mundo. Mas eu pertenço à geração 2.0, que atravessa o conhecimento. Fundindo as novas tecnologias de comunicação, com a ecologização das cidades, podemos criar projetos híbridos, trazendo o campo para as cidades.

Pergunta – Alguns de seus projetos parecem ter saído de um filme de ficção científica… 

Vincent Callebaut – Você tem que imaginar um futuro possível, mas ter projetos atraentes. No cruzamento das restrições em que vivemos neste complexo mundo, paradoxalmente ele também é propício para renovações.

O PROJETO LIBÉLULA, por exemplo, trata-se de uma fazenda vertical para Nova York ao longo do East River. Este protótipo de fazenda urbana teve a colaboração do MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts , pois já possuía estudos avançados sobre agricultura verticalizada urbana. Este mesmo conceito serviu para o meu projeto de ilhas flutuantes para refugiados do clima: PROJETO LILYPAD.

Pergunta – Com base nestes projetos, há um conceito para cidade inteligente? 

Vincent Callebaut – Uma cidade inteligente deve ser autoalimentada e, ao contrário do que acontecia antes, os resíduos devem tornar-se recursos. Poderíamos, por exemplo, reciclar os resíduos das fazendas verticais em aquários com biorreatores de algas verdes – aquelas que encontramos nas praias da Normandia e Bretanha – transformando lixo orgânico em bio-óleo para produzir combustível. Na parte inferior dos edifícios, lagoas com fito-purificação assegurariam a reciclagem das águas residuais para piscinas, tanques de peixes e as plantações. A criação de peixes ajuda a fornecer peixe, mas também reprocessaria todos os nutrientes que liberam fertilizante natural para as plantas nos jardins suspensos. Isto é basicamente uma economia circular onde tudo é transformado infinitamente. O PROJETO LIBÉLULA, por exemplo, é a justaposição de uma torre com escritórios, plantações e residencias. À noite, o calor gerado dentro dos escritórios é transferido para as residências. Muitas vezes, a inteligência da cidade é simplesmente a sua reprogramação.

Pergunta – Por que tanta vegetação?

Vincent Callebaut – Uma das razões é lutar contra o forte calor urbano. Vivemos em ambientes à prova d’água e cinzentos, eles devem ser transformados em cidades verdes e permeáveis. Uma cidade pode absorver a suas águas pluviais e gerar a bioclimatização naturalmente. Para isso, temos de limitar o número de fachadas minerais e substituí-las com coberturas e fachadas verdes.Também temos planos para repatriar a agricultura urbana. Nós poderíamos produzir 30% da agricultura biológica consumida pelos parisienses.

Pergunta – Este poderia ser um alimento mais caro?

Vincent Callebaut – Pelo contrário, eliminando ciclos de transporte e os sistemas de acondicionamento, reduziriam os custos. Consumir mais localmente como prega a AMAP (Associação Internacional para Manutenção da Agricultura de Proximidade). É uma maneira de convidar o cidadão se tornar um jogador na economia local e na solidariedade. Com esta agricultura urbana, propomos novos empregos que ainda não existem. Inter-relacionando um arquiteto com um engenheiro agrícola, um jardineiro com uma mercearia de varejo. Temos de quebrar as barreiras entre as disciplinas existentes. A criação de novos postos de trabalho conciliando os desejos esquizofrênicos da nossa sociedade de ser “nerd”, com o de subir em árvores.

Pergunta – Você enfatiza a qualidade de vida e a sociabilidade…

Vincent Callebaut – A partir dos agricultores urbanos é uma forma de rediversificar as cidades que são hoje completamente comerciais. Da biodiversidade humana e profissional até a diversidade social. Estes projetos são aldeias verticalizadas que propiciam uma nova maneira de criar laços sociais. O que nos mata, hoje é a monofuncionalidade. O espaço urbano é estanque possuindo as comunidades de dormitórios, os bairros históricos, e as áreas de negócios ou escritórios. A diversidade social é tão necessária quanto a biodiversidade

Pergunta – Asian Cairns, em Shenzhen, Tao-ZHU Garden em Taipei, são projetos seus que estão já em construção?

Vincent Callebaut – Tao-ZHU Garden Tower é nosso projeto mais avançado, deve ser habitável em 2017. Ele é coberto com varandas/jardins que possibilitam que 50% de suas fontes de energia sejam renováveis. No telhado é fornecido um enorme pérgola fotovoltaica, que irá criar água quente e toda a energia necessária para as partes comuns da torre. Construído sobre uma das principais falhas sísmicas do mundo, a torre é toda de aço. Ela se dobra, mas não quebra, sua fundação está sobre um sistema de rolamento de esferas, podendo mover-se de forma independente do edifício. Um autêntico projeto pós-Fukushima.

Nosso inimigo na maioria dos países emergentes é o ar condicionado mecânico. As temperaturas podem ser muito alta, então você tem que imaginar um ar condicionado natural, vegetação e mais isolamento. Estão previstos, vidros preparados para combater o aquecimento no interior dos apartamentos. Esta é a vantagem do design da espiral de edifícios em forma de DNA gigante, ele permite uma rotação durante o dia dando condição das árvores crescerem altas nos terraços de dois andares.

Outro projeto mais avançado é o The Gate Residence no Cairo. Ele está em construção desde abril e será entregue em 2019. Será uma ilha solar, com 450 mil m2 de construção, com 250 mts por 250 mts e terá 43 mts de altura.  Ele é coberto com uma calota solar, onde foi projetada placas fotovoltaicas que geram eletricidade para o centro de compras e todas as áreas públicas. Utilizei também uma tradição que remonta a mais de 3000 anos utilizada no Egito dos faraós: a malqaf. São poços de ventilação abaixo das fundações, 15 ou 20 metros de profundidade e que permitem a circulação de um ar frio que pode reduzir em 30 ou 40 graus centígrados as temperaturas do prédio. É como criar um oásis urbano em uma área semidesértica.

Pergunta – Você também trabalha para um projeto em Paris. O que é isso?

Vincent Callebaut – Em 2014, foi criado um concurso para o Projeto Smart City Paris 2050: A ideia inicial era desenvolver protótipos de construção de arranha-céus. Paris tem uma má experiência com torres. Mas a capital francesa é também uma das cidades mais densas do mundo (22 000 habitantes por quilómetro quadrado, contra 28.000 em Nova York). Não há espaço para jardins no chão e a única solução é a verticalidade.

Pergunta – Paris é também uma das maiores capitais/museu do mundo.

Vincent Callebaut – Para este projeto, não estamos tentando apagar o passado. A cidade deve ser a manifestação do melhor de cada época. Há dois séculos, o barão Haussmann arrasou 75% do centro de Paris por razões de higienização e acabou criando então a Cidade Luz planejada. Estamos em outra fase trazendo a cidade inteligente, com novos edifícios autônomos em energia. E tecnologicamente podemos passar para a fase da solidariedade energética, com condições de criar edificações que produzirão mais energia que consomem sustentando os prédios inertes. Isto sim, preservará as heranças de uma cidade nos tempos da energia pós-fóssil. Se tecnicamente é possível, a questão é alavancar politicamente para realizar. Assim é a evolução, que um dia, sem dúvida, me fará ser totalmente ultrapassado.

 

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