comunidade

Condomínios fechados X Fauna

Publicado em: 9/10/2015

Moradores, cães e gatos podem ser vilões do frágil ecossistema dos condomínios com matas. Como evitar?

 

green3

 

Por Isadora Gimenes

 

Viver em locais afastados do caos urbano de cidades grandes é, hoje, uma espécie de medida de refúgio adotada por diversas famílias que moram em locais próximos de matas e florestas, caso típico da comunidade dos “condomínios fechados”. São lugares cuja distância de áreas urbanas não impossibilita as pessoas de trabalhar durante o dia enquanto mandam seus filhos para a escola e, à noite, voltar para um lar, juntinho da natureza, com uma bela vista e bastante espaço para crianças e animais domésticos brincarem.

O desfrute desses espaços tem inúmeras vantagens. No entanto, uma das maiores desvantagens causadas pela ocupação humana nessas áreas é a enorme depredação à fauna local, inclusive pela interação entre animais domésticos e silvestres. Segundo a veterinária com mestrado em Biodiversidade em Unidade pela Escola Nacional de Botânica do Instituto Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, Cristiana Pompeo do Amaral Mendes, “uma reflexão que precisa existir é que, se o desejo é morar em uma área mais afastada, próxima à floresta, é preciso entender que os animais estavam ali antes e é a casa deles este lugar. Os seres humanos é que são intrusos nesse ambiente, e precisam respeitar isso.” Completa dizendo que o ideal é que o departamento administrativo dos loteamentos construídos nessas áreas repasse, organizadamente, esta consciência aos moradores, para que saibam lidar com a questão minimizando os problemas. “Muito foi destruído, e os animais que ainda temos estão tentando sobreviver. É uma questão de ser sensível à situação. Acho que é muito importante esclarecer isso. Quem procura esses lugares, geralmente gosta da natureza, e muitas vezes não sabe que está matando animais silvestres por medo ou negligência”, diz ela. Animais, tidos como perigosos que habitam os locais e são importantes ao ecossistema – tais como aranhas, roedores, cobras e lagartos – muitas vezes são mortos pelos próprios moradores.

dog-the-dog-red-cat-friends

CONDOMÍNIOS COM MATA DEVEM TER TREINAMENTO

“Na verdade é preciso fazer um trabalho maior do que conscientizar. É preciso sensibilizar os moradores. Isso tem uma importância para a natureza, porque toda a fauna silvestre tem um papel a dispor no ambiente. Pássaros, além de controlarem insetos, dispersam sementes – o que é importante para a floresta. Tem espécies de árvores que só vão disseminar depois que a semente passar pelo trato digestivo de roedores, como por exemplo, ratos. Só aí que ela consegue germinar”, defende Cristiana. As serpentes também têm uma importante função dentro do ecossistema. Com relação às venenosas, a medida a ser tomada é tirá-las do local onde podem oferecer perigo e levá-las para áreas de mata. Quem deveria fazer isso são os agentes de segurança dos condomínios, depois de um treinamento especializado. No caso dos pequenos e menos peçonhentos, adultos podem jogar jornais ou panos, por exemplo, enrolar o animal e soltar numa área mais distante, tendo o maior cuidado possível para não machucá-lo.

Com relação à alimentação, ainda, é importante que não se dê nenhum tipo de alimento para animais silvestres, além de providenciar para que o lixo doméstico não fique à disposição deles, e sim num local bem protegido da onde possa ser levado embora o mais rápido possível.

A simples implantação de um condomínio de casas num espaço rural já tira um espaço que era, inicialmente, apenas dos animais. Por um lado, a maior parte desses condomínios possui grandes áreas de mata e lagos, o que ajuda na manutenção de populações silvestres. Mas se medidas não forem tomadas tendo em mente a fauna local, o estrago pode ser grande. É importante que cercas externas, por exemplo, tenham passagens para a fauna.

CARNIVOROS-3

ANIMAIS DOMÉSTICOS POTENCIAIS DEPREDADORES DA NATUREZA

 

Animais domésticos, quando não são bem cuidados e deixados completamente soltos nesses locais, podem atacar a fauna silvestre – tanto para matar quanto comer. Há também a questão que, só pelo contato – pelas fezes ou urina, por exemplo – podem transmitir ou adquirir doenças. Segundo o pesquisador da Instituição Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Paulo Roberto Amaral, “jamais se deve abandonar um cão ou gato na zona rural. É fundamental a posse responsável desses animais domésticos.” Os abandonados devem ser recolhidos pela administração municipal. Os animais em geral são predadores, e se tornam selvagens para sobreviver. Cães abandonados são nefastos à fauna, pois se unem formando matilhas e tornam-se matadores de qualquer animal que encontrarem, como coelhos, raposas, esquilos e até cobras e mamíferos maiores como jaguatiricas e lobos guará.

Já dentro dos próprios condomínios, é importante que a preservação dos animais esteja prevista nas normas do condomínio e os moradores saibam que, são parte da solução, mas devem também saber como se comportar e buscar auxílio com as autoridades específicas. Os seguranças do condomínio, veterinários, a Polícia Ambiental e bombeiros são os responsáveis por tomar conta da saúde desses bichos e, consequentemente, do funcionamento do meio ambiente que habitam.

 

TEMOS QUE INTERAGIR

COM A NATUREZA

É importante ter em mente que a natureza é um “pacote fechado”: tem flores, borboletas e colibris, mas também cobras, aranhas, onças e plantas espinhosas, por exemplo. No caso desses espaços ocupados por seres humanos que habitam em convivência com animais silvestres, como os condomínios fechados de casas com áreas de mata, o ideal seria ter folhetos de orientação, que expliquem sobre a Natureza do espaço e o que fazer para conviver bem com ela. Ao deparar com animais selvagens na área, as pessoas não precisam se assustar, e sim simplesmente observar o animal e não incomodá-lo, deixando o caminho livre para que ele também vá embora. Quando a convivência não é possível, muitas pessoas têm tendência de matar animais. O certo, no entanto, é relatar o encontro para o Departamento de Segurança, que se não puder solucionar, passará o caso para as autoridades competentes. Não existem registros para todos os ataques de animais silvestres a seres humanos, mas a maior parte deles é de insetos como abelhas e marimbondos. O mais importante é que, no caso de um condomínio, sempre que se for entrar nas áreas de mata, esteja bem protegido com roupas próprias e fique alerta. Assim, é possível aproveitar a natureza em que se habita sem correr ou submeter famílias a riscos.

A reflexão é simples: todos, homens e animais, têm direito a uma existência segura, sem conflitos. Conforme o ser humano vai ocupando os espaços naturais, esses encontros com a fauna vão se tornando mais comuns. É importante que se aceite isso naturalmente e se use a capacidade e inteligência humana para evitar problemas, sem eliminar os animais silvestres.

 

FONTES:

– André Rinaldo Senna Garraffoni – Pós-doutor em zoologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

– Paulo Roberto Amaral – ICM-Bio – CENAP Pesquisador

– Cristiana Pompeo do Amaral Mendes

Comentários

Powered by Facebook Comments