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Pai apita

Publicado em: 7/08/2013

Pais e Filhos

Parceria: www.revistapaisefilhos.com.br

Por Thais Cresoni, mãe de Gustavo e Gabriela

Chegou a hora, ou melhor, já passou da hora dos pais reivindicarem o direito de exercerem seu mandato. Quando o filho nasce, nós, mães, assumimos as tarefas cotidianas como leoas e às vezes não deixamos ninguém chegar perto. Você amamenta, troca a fralda, escolhe as roupas, leva o bebê para tomar o banho de sol, carrega para o pediatra. Ufa! Cansa… E você esqueceu que, nesse corre-corre, pode contar com um grande aliado: o pai. Embora a gente às vezes não reconheça, ele é tão importante na vida das crianças quanto nós mesmas e deve, sim, participar do dia a dia delas.

Algumas mães reclamam que o pai não participa, mas a verdade é que a maioria não deixa. Normalmente, por uma falsa ideia de que só ela pode cuidar direito das necessidades do filho. E, quando permite o acesso do pai, ela checa depois todas as coisas que foram feitas por ele.

“A mãe desenvolve durante a gestação e nos primeiros anos de vida da criança um vínculo de apego grande, muitas vezes superprotetora. Isso acontece, principalmente, na gestação do primeiro filho. Os cuidados maternos ficam muito exacerbados porque a mãe não confia o filho à outra pessoa, nem mesmo ao pai”, diz Ana Lúcia Gomes Castello, psicóloga clínica e consultora do Hospital Sabará, mãe de Renata e Roberta.

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Julia Corrêa Lázaro se encaixa perfeitamente nesse perfil. A mãe de Otávio e Davi fazia tudo sozinha na época em que os meninos eram bebês. Cortava as unhas, dava banho e comida, levava e buscava na escola, colocava-os para dormir. Daniel, o marido, não tinha aval para executar nada. Hoje, sempre que faz algo, é supervisionado e ela não deixa os meninos saírem sozinhos com o pai, nem para ir ao mercado. “A única vez que o deixei dar banho, quando cheguei ao banheiro, o Otávio estava com o rosto a 1 milímetro da água, quase morri de susto”, conta, apavorada. Já aconteceram situações em que Julia pediu para o pai trocar os meninos e ele colocou roupas de festa para as crianças descerem ao playground. “Ele é muito distraído e eu sou perfeccionista. Acho que ninguém irá fazer tão bem como eu”, diz Julia. Daniel se defende: “A Julia é muito superprotetora e fico indignado de não poder levar os meninos à padaria!”

Mãe leoa!
A superproteção inicial é instintiva. A mãe quer ter a cria por perto e garantir que nada de errado vai acontecer com a sua prole. Porém, é saudável e importante para a criança o relacionamento com o pai. Essa versatilidade tira a criança de uma versão moldada, afinal cada um tem um estilo diferente para cada atividade. “A relação exclusiva faz com que, muitas vezes, a mãe desenvolva vínculos que podem prejudicar o desenvolvimento emocional da criança”, ressalta Ana Lúcia Castello. Nesse contexto, muitos pais se abstêm. Quando os pais insistem na participação, essa superproteção materna pode ser menor.

O banho do pai não será dado do mesmo jeito que o da mãe, mas isso não significa que será ruim. Os pais são homens e, portanto, têm um modo masculino de lidar com o filho, mais direto e às vezes menos superprotetor. A criança pode ir se acostumando com essa forma nova e alternativa de cuidados, tendo a opção de escolher como prefere e isso poderá incomodar a mãe.

É um grande aprendizado para o pai participar dessa rotina também. Bruno Freitas, pai da recém-nascida Carolina, ajuda a esposa Fabiana a dar conta do recado. Participa dos banhos, troca as fraldas e acompanha as mamadas da madrugada. Para completar, ele ainda a elogia, o que é o máximo, já que essa é uma época em que vivemos descabeladas e com olheiras! Aliás, esse cansaço todo é mais um motivo para que o apoio e a participação do pai sejam fundamentais. “Além do que, é saudável para a futura criança haver um ‘intruso’ na relação perfeita do bebê com a sua mãe”, diz a psicóloga AntoniaGomilaFemenias, filha de Gabriel e Jeronima.

Pai que participa
Sair mais cedo do trabalho para jogar com os filhos, escovar seus dentes ou colocá-los para dormir: quando esse tipo de iniciativa parte do homem, a mãe costuma se sentir mais segura. Em contrapartida, quando o pai se acomoda, ela invade o espaço dele e não o deixa intervir. “Mães leoas acabam criando pais folgados, o que não é saudável para o futuro da família”, acredita a psicóloga Antonia.

Um bom começo para assegurar a presença do pai, sem assustar a mãe, é a divisão de tarefas. A mãe dá o banho, o pai seca. A mãe amamenta, o pai coloca para arrotar. E assim por diante.

Daniele Garcia, filha de Fátima e José, já começou essa preparação antes mesmo de ser mãe. Ela pretende engravidar daqui um ano, mas já divide as tarefas da casa com o marido de acordo com a preferência, e acredita que isso ajudará quando o bebê chegar. Hoje, o marido Leonardo é responsável por lavar a louça e arrumar a casa. Ela por lavar e passar a roupa e fazer a comida. O cachorro é responsabilidade dos dois.“Com essa dinâmica já teremos um ritmo quando o bebê chegar”, acredita.

Simone Varon, mãe de Patrick e Nicole, sempre teve o marido, Michel, ao seu lado dividindo as tarefas. “Tem coisas que o pai tem mais facilidade e gosta mais. Assim, facilita definir o que cada um faz. Desde o primeiro dia, o Michel deu banho no Patrick, então essa ficou sendo uma tarefa dele. Logo de cara já me falou: eu não gosto de colocar para dormir. Então, pronto: essas tarefas estavam definidas”, conta ela.

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Além da ajuda cotidiana, Michel deu todo o suporte quando Simone voltou à vida agitada no trabalho, que lhe exigia muito, inclusive viagens. Depois que Patrick fez 2 anos, ela começou a viajar por mais de duas semanas, a trabalho, para o outro lado do mundo. “Quando Patrick era menor, o Michel tinha certa insegurança, mas ficava com ele mesmo assim”, lembra.

Um estudo realizado em Yale (USA), sobre famílias nas quais os homens exerciam o papel principal nos cuidados com os filhos, mostrou que esses não só se desenvolveram bem, como tiveram boas performances nos estudos e melhores desempenhos sociais do que aqueles que foram criados só com as mães.

Foi-se o tempo em que o pai era apenas o provedor da família, responsável por trazer o dinheiro para casa e tinha uma postura fria e distante, enquanto a mãe amorosa zelava pela família, pela casa e era responsável pelos cuidados dos filhos. Hoje os papéis se misturam, ainda bem. O velho ditado popular que diz “mãe é mãe”, também vale para os pais.

Consultoria
Ana Lúcia Gomes Castello, mãe de Renata e Roberta, é psicóloga clínica e consultora de Psicologia do Hospital Sabará.AntoniaGomilaFemenias, filha de Gabriel e Jeronima, é psicóloga.

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