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O Rei dos Musicais

Publicado em: 8/03/2013

Por Ana Carolina Diederichsen em São Paulo

Que “O Rei Leão” é um dos maiores marcos do cinema animado, ninguém discorda. Até porque durante anos ele foi, isoladamente, o responsável pela maior bilheteria de animação da história, perdendo a majestade apenas em 2010, para “ToyStory3”. Agora, o que nem todos sabem é que, além de uma das maiores franquias cinematográficas de todos os tempos, “O Rei Leão”, é também um grande fenômeno da Broadway. Fenômeno esse que já pode ser apreciado pelos brasileiros, em São Paulo. Sob a direção de Thomas Schumacher e Julie Taymor, a mega produção, traduzida para oito diferentes idiomas (japonês, alemão, coreano, francês, holandês, mandarim, espanhol, e agora, português), recebe a adaptação e tradução musical do ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, para a temporada tupiniquim.

Mercado aquecido e em expansão
A montagem brasileira de “O Rei Leão” comprova que os musicais estão em alta no Brasil. Com um total de 57 atores, essa será a maior produção musical já realizada no país. Além da equipe nacional, o elenco é composto por oito sul-africanos, devido à presença marcante do idioma zulu nas músicas. Inclusive, o elenco africano está presente em todas as montagens mundiais e ajuda a dar a tônica ao musical.

A equipe, criativa responsável pela montagem original, ficou por semanas no Brasil realizando os testes de elenco e testando as novas versões das músicas. A escolha de Gilberto Gil para a tradução e interpretação musical também foi muito consciente pois, além de entender o idioma e a cultura nacional, o responsável pela adaptação tem que conhecer bem a musicalidade envolvida. O cantor, que teve grande liberdade para criar, manteve as melodias originas e adaptou as letras para a realidade brasileira, alterando inclusive algumas das já clássicas músicas lançadas na versão dublada do filme.

Com uma historia comovente e uma montagem criativa, “O Rei Leão” promete fazer bonito em sua versão brasileira, misturando elementos lúdicos e profundos para encantar as crianças e comover os adultos. A fauna e a flora ganham vida, formas, cores e texturas e ajudam a encantar o público. Como todo programa Disney deve ser, agrega diversão para toda a família, com valores culturais tão encantadores quanto o reino de Simba.

Para a versão nos palcos funcionar, sem cair na pieguice, Julie Taymor optou por se manter fiel ao enredo do filme valorizando a história, com muita simbologia. A peça assume que os personagens são alegorias e representam características humanas, então, por que não revelar o lado humano de cada um deles?

Assumindo essa postura, Julie teve a liberdade necessária para criar um visual inovador, e declara que não quis fazer um musical ao estilo Disney, em que o segredo da fantasia não pode ser revelado. “Quero que a plateia veja o ator manipulando o boneco e crie sua própria fantasia”, comenta a figurinista. Com isso, os personagens usam mascaras para caracterização e identificação, mas os atores ficam em evidência.  Ela prioriza o lado humano da história.

As origens
O que torna o sucesso da animação “O Rei Leão” ainda mais emblemático, é que ele foi concebido despretensiosamente pelos corredores da Disney. Ainda embebidos pela atmosfera do fenômeno que ficou conhecido como “o renascimento da animação”, cujo marco foi o sucesso de “A Pequena Sereia”, seguido por “A Bela e a Fera”, “Aladdin”, entre outros, os executivos da Disney decidiram investir em novas equipes, tecnologias e filmes, que passaram a ser produzidos em escala industrial. Visando aproveitar esse estouro de mercado, vários trabalhos surgiram simultaneamente.

Nesse contexto, “Pocahontas” era o filme principal e atraia todas as atenções. “O Rei Leão”, pensado como um filme secundário, foi criado com certa liberdade e muito colaborativismo. Como um projeto experimental, a equipe de “O Rei Leão” era composta por profissionais competentes, mas sem muita experiência no mercado. Os dois diretores do filme, Rob Minkoff e Roger Allers, haviam trabalhado apenas em alguns curtas-metragem sem muita expressividade e queriam mostrar ao que vieram.

Pautado em elementos fundamentais da existência humana, como a perda da inocência, a jornada pelo autoconhecimento, a morte e a chegada da maturidade, “O Rei Leão” trabalha com arquétipos bastante palpáveis para o público. O roteiro, desenvolvido livremente, foi tomando forma permeando por histórias bíblicas, e pela tragédia Shakespeariana de “Hamlet”. Em determinado ponto do desenvolvimento, Rob Minkoff diz: “estávamos fazendo um filme sobre nós mesmos, nossos medos e angustias”. Na trajetória de Simba, repleta de bichinhos bonitinhos e divertidos que encantam as crianças, existe uma história densa e comovente com a qual os adultos também se identificam. Talvez a esse fator universal de “O Rei Leão” possa ser atribuído seu estrondoso sucesso.

Das telas para o palco 
Em 1994, no mesmo ano em que o filme foi lançado nos cinemas, a montagem original do musical “A Bela e a Fera” estreava na Broadway, com grande sucesso de público e crítica. Foi então que a ideia de adaptar “O Rei Leão” para os palcos surgiu. No começo, vista como uma ideia impossível, por se tratar de um filme em que todos os personagens eram animais, a adaptação passou a tomar forma. E foi sob a batuta de Julie Taymor que os executivos da Disney se convenceram de que essa empreitada poderia, de fato, dar certo. Segundo Julie, “o desafio era, a partir de um filme muito popular, manter sua essência e transformá-lo em uma montagem teatral”.

Partindo da premissa de quão sublimar a ideia de que os personagens são bichinhos falantes, eles revelam um roteiro poderoso e atrativo, sob o comando de Julie Taymor, com o grande desafio de adaptar a historia de Simba e seus amigos para uma peça teatral. Tentando fugir dos clichês que poderiam surgir por se tratar de uma empreitada da Disney, ela mergulhou na origem africana da historia e se deixou inspirar por toda a musicalidade com ritmo marcante do continente.

Para sua adaptação para os palcos, a montagem original contou com parte da equipe que produziu o filme, como a roteirista, co-diretor e os compositores premiados com o Oscar pela versão cinematográfica, Elton John, Tim Rice e Mark Mancina. 

A musicalidade original do filme já havia inspirado a criação de um álbum musical, posteriormente lançado comercialmente, chamado “RhythmofthePrideLands”, escrito pelo sul-alfricano Lebo M em parceria com Mark Mancina e Hans Zimmer. Esse álbum, cujas criações foram incorporadas ao musical, dita o tom das novas músicas compostas para a montagem da Broadway, criando uma junção musical inusitada e extremamente rica, que incorpora influências desde o pop britânico às tradicionais musicas tribais africanas.

Desse sincretismo musical surgiu a inspiração para o visual poderoso da peça. A riqueza de ritmos se traduz e se multiplica em uma explosão de detalhes, cores, materiais diversificados e texturas, criando um charmoso contraste entre a rusticidade e a tecnologia. A escolha estética, predominantemente tribal, é um dos pontos altos da montagem e se destaca pela originalidade. Sobre isso, Tom Schumacher, executivo responsável pelos musicais da Disney na Broadway, comenta que “poderia parecer algo ousado em uma produção da Disney, que sempre preservou a construção da fantasia, mas era exatamente isso que nos interessava, um produto que mantivesse intacta a magia a partir de novos caminhos.”

Vida Longa ao Rei!
Após alguns anos de produção, em novembro de 1997, o musical “O Rei Leão” finalmente tomou o seu lugar de direito nos palcos da Broadway. Desde então, contabiliza números impressionantes. No total, já foram realizadas 19 produções em todo o mundo, somando um público superior a 65 milhões de pessoas. Com isso, a montagem original ganha o título de maior bilheteria da história da Broadway, com arrecadação de US$853,8 milhões, desde sua primeira apresentação, desbancando clássicos como “O Fantasma da Ópera”, em cartaz desde 1986. Vale a pena conferir!

Em 1998 ganhou seis prêmios Tony®, a maior premiação do teatro, nas principais categorias, recebendo inclusive o cobiçado prêmio de Melhor Direção de Musical para Julie Taymor, a primeira mulher a ser agraciada com esta honra na história teatral. Em 1999 recebeu também o mais importante premio da indústria fonográfica, o Grammy® de “Melhor Álbum de Show Musical”, entre tantos outros que recebeu durante sua extensa carreira mundial.

Assim como a animação, o musical também foi lançado com dúvidas e incertezas sobre seu o futuro. Mas seguindo o mesmo caminho de seu precursor, se tornou grande sucesso, com publico fiel e diverso.

Para conferir um pouco mais da genialidade criativa de Julie Taymor, que também já dirigiu belos filmes com destaque internacional, uma boa dica é “Frida” (2002), que conta a historia da artista plástica mexicana Frida Khalo de maneira visualmente muito rica. Uma curiosidade desse filme é que a música original indicada ao Oscar composta para a trilha sonora, foi escrita pela diretora americana e interpretada pelo brasileiro Caetano Veloso. Outro destaque é“AcrosstheUniverse” (2007), um filme musical, que narra através das musicas dos Beatles o romance entre dois jovens em um momento político muito turbulento nos EUA, que contempla o período da guerra do Vietnam. Ambos recebem uma forte atenção no visual, com um grande destaque para a presença da música, criando mundos extremamente ricos.

Serviço 
Local: Teatro Renault
Endereço: Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 – Bela Vista.
São Paulo – SP
Estreia: 28 de março de 2013
Horário: Quartas, Quintas e Sextas, às 21h, Sábados, às 16h30 e 21h e Domingos, às 15h30 e 20h.
Ingressos: de R$50 a R$280
Capacidade: 1530
Recomendação: livre. Menores de 12 anos: permitida a entrada (acompanhados dos pais ou responsáveis legais).
Telefone: 11 2846.6060

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