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Encontros e (muito mais) desencontros

Publicado em: 12/11/2012

Por Isabela Reis / Fotos Marina Felipe

Valorizar o sonho da manhã, acordar tarde e ficar acordado até de madrugada. Assim são os notívagos, aquelas pessoas nas quais a disposição e a produtividade aumentam conforme avança a noite. Da mesma maneira, evitam, ao máximo, compromissos pela manhã. Para os notívagos, encontrar espaço no mercado de trabalho é um desafio. Por isso, é comum atuarem em profissões com possibilidades de horários flexíveis. Mas, é quando falamos de relacionamento é que realmente tudo se complica.

Vida social e amorosa colocada em segundo plano, cobranças por parte do parceiro não notívago, desencontros, ausência do companheiro(a), incompreensão, compromissos adiados e até falta de aceitação. A questão aqui é como manter a harmonia da relação quando o casal é formado por uma pessoa com hábito noturno e outra com hábito diurno?

Enquanto ele quer fazer uma caminhada no domingo de manhã, ela quer dormir mais um pouquinho. Enquanto ela quer sair à noite, ele precisa descansar. Enquanto ele deseja tomar um café da manhã romântico, ela quer ficar na cama até mais tarde. Ao sair para uma viagem, ele prefere dirigir durante o dia, ela durante a noite. Tantos outros exemplos existem no cotidiano de um casal provocados pelos desencontros dos “fusos” horários entre o homem e a mulher.

Enfim, hábitos diferenciados afetam sim o relacionamento, principalmente quando cada um adota um comportamento completamente desencontrado durante as 24 horas do dia. Não há como negar que isso pode levar a um desgaste da relação. “É realmente um empecilho; se não houver um esforço para conseguir se encontrar, a relação se desgasta pelo afastamento. O casal tem que encontrar formas de passar mais tempo junto”, orienta Rita Khater, professora de Psicologia da Puccamp (Pontifícia Universidade Católica de Campinas).

 

O dia pela noite

João Ricardo Ferreira Silva tem 35 anos e está solteiro por conta de sua relação com os horários. Ele trabalha durante a noite e passa a maior parte do dia dormindo. “Troco a noite pelo dia. Assim, fica muito difícil para uma mulher com hábitos normais entender minha situação.” Ele já se viu obrigado a terminar um relacionamento devido ao hábito noturno, sendo que o último namoro, que durou apenas cinco meses, terminou por causa disso. “Os horários não batiam, e aí ficou difícil”, lembra.

Ele explica que a situação ficou insustentável por causa dos desencontros. “A gente acabava nem se vendo mais e quando nos encontrávamos, brigávamos muito por causa dos horários; então decidimos terminar.” Para ele, a parceira ideal seria aquela que compartilhasse sua preferência pela noite e entendesse seu comportamento noturno. “Fica difícil deixar o hábito porque é o meu trabalho. Produzo muito melhor à noite. Por isso, agora, tento encontrar alguém com o mesmo hábito que o meu ou alguém que me aceite assim”, acrescenta.

De acordo com os especialistas no assunto, ninguém nasce notívago. O comportamento noturno ocorre durante a vida. É motivado por uma eventual necessidade de atuação no mercado de trabalho ou mesmo decorrente da opção de vida de cada pessoa. “É um hábito passível de mudança, desde que exista uma motivação muito especial. Pode ser por causa de um relacionamento ou de um emprego”, acrescenta Rita Khater.

Outro problema para o relacionamento decorrido da falta de sintonia em relação aos horários é a vida social. “É muito importante para o casal compartilhar momentos agradáveis com os amigos e com a família”, analisa Dayse Borges, psicóloga e também professora da Puccamp.

Existe solução?

Vinícius Cardoso é músico e, na maioria das vezes, trabalha à noite. Sua profissão tem tudo haver com o estilo que adotou para sua vida. Por conta disso, sempre teve muita dificuldade de se relacionar. “As cobranças eram pela falta de uma vida, considerada, pela maioria das pessoas, como normal”. Há dois anos namora Camila Machado. “Ela me compreende ou pelo menos tenta entender meu ritmo e meus horários”, relata. O casal tenta equilibrar as adversidades. “Apesar de a Camila compreender meu ritmo, sei que é complicado para ela”.

Camila realmente confessa que é muito difícil acompanhar os hábitos de Vinícius. “Tem vezes que a gente marca algum compromisso de manhã e ele não consegue chegar no horário; já tomei muitos bolos. Mas, me esforço porque quero manter a relação até onde for possível”.

Ela conta que, no começo do namoro, as brigas, por causa dos horários, eram mais frequentes e que foram diminuindo com o tempo, mas ainda assim, às vezes as discussões acontecem. “A gente brigava muito por causa dos horários dele, mas sentamos e conversamos. Acho isso importante. Brigamos ainda hoje, mas tentamos evitar ao máximo, para a relação não se desgastar”, conta.

O hábito e a sua mudança

Ser notívago é um hábito e pode sim ser mudado. “Cada espécie foi programada de uma forma e o ser humano foi programado biologicamente para ter atividades durante o dia e descansar durante a noite, já que todo o funcionamento de seu organismo funciona melhor à luz do sol”, explica Dayse Borges.

Portanto, para Dayse, os notívagos precisam se esforçar para tentar se adequar ao horário considerado normal. “O bom de toda essa história é que, como é um hábito e a espécie foi programada para ter uma vida de atividades diurnas, os notívagos podem mudar. Basta vontade!”, pontua.

Porém, quando não for possível mudar o comportamento, o relacionamento precisa de um ajuste de ambas as partes. “Se o casal se gosta e quer que a relação realmente dê certo, tem que se adequar, conversar muito e equilibrar a situação”, finaliza Rita Khater.

PARA DAR CERTO

– Compreensão do casal sobre essa diferença

– Equilibrar os horários para conseguirem se encontrar

– A vida social é importante, não esqueça dela

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