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E as crianças…Que crianças?

Publicado em: 12/11/2012

Por Isabela Reis / Fotos Bruno Sandrini

Os anos passam e as bonecas, os carrinhos e os álbuns de figurinhas vão cedendo lugar para o namorado, à turma de amigos, à rede social, aos instrumentos musicais e às baladas. Os filhos crescem e, consequentemente, surge uma porção de descobertas para explorar, em novas tribos e em novas situações. Nessa época, a relação entre pais e filhos fica abalada. De um lado, os pais não percebem essas mudanças. De outro, os filhos tentam reafirmar essa nova fase cheia de descobertas.

Em artigo, cujo título é “Pais não percebem quando o filho deixa de ser criança”, o médico psiquiatra Flávio Gikovate explica que o crescimento dos filhos é quase imperceptível e esta dificuldade se agrava devido à convivência com eles diariamente, já que ora falam como criança, ora falam como adultos, em uma mudança gradativa.

Flávio Gikovate dá algumas dicas para os pais perceberem essa mudança, como, por exemplo, quando os filhos começam a falar só com adultos, quando tornam-se mais preocupados com a vida e passam a se interessar por notícias de jornais.

Porém, para os pais, essa adaptação costuma ser demorada e dolorosa. Afinal é difícil, para eles, assumirem para si mesmos que os filhos cresceram e que já é hora de cortar o cordão umbilical e deixarem que eles partam para gerir suas próprias decisões, mesmo que isso signifique decepções e traumas.

A aceitação da emancipação e do amadurecimento dos filhos é um processo que reflete, em última instância, aspectos da própria personalidade e constituição emocional dos pais, bem como do ambiente em que se deu a criação dos filhos. “Podemos destacar três principais ingredientes, que estão relacionados entre si, que dificultam esta aceitação: incapacidade de lidar com perdas, vínculos afetivos inapropriados e imaturidade emocional”, explica Arlindo Ferreira Gonçalves Júnior, professor de Psicologia da Puccamp (Pontifícia Universidade Católica de Campinas).

Vera Lúcia de Oliveira Carvalho é mãe de Frank, de 21 anos, e de Ian, de 14 anos. Para ela, eles ainda não cresceram. “É incrível como é difícil mudar esse conceito de que meus filhos não são mais crianças. Para mim, eles ainda são imaturos e não sabem fazer escolhas.” Vera conta que faz o possível para evitar tratá-los como criança, mas confessa que ainda se pega fazendo uma lista de atividades para os filhos fazer no decorrer do dia. “Sempre fico lembrando se meus garotos já tomaram banho ou se já estudaram para a prova.”

A própria Vera reconhece que a superproteção pode gerar um grande problema. “Tenho certeza de que isso é ruim para eles, porque acabo impedindo que tomem suas próprias decisões, independente se são ruins ou boas. Isso pode fazer com que meus filhos se tornem adultos indecisos, imaturos, medrosos e, principalmente, sem iniciativa.”

E Vera está certa! Atitudes superprotetoras podem ser tão nocivas para a constituição da personalidade como aquela de absoluta ausência. Ambos os casos geram imensa dificuldade para os filhos. “Alguns dos principais problemas referem-se à não saber lidar com as perdas e tomadas de decisão, inadaptação social, irresponsabilização, narcisismo e fragilidade nos vínculos afetivos”, pontua Gonçalves Júnior.

É importante aceitar

É preciso que os pais aceitem a situação: os filhos crescem! Isso é necessário para que eles amadureçam e comecem a encarar a vida sozinhos. “Os pais têm que entender que os filhos são pessoas independentes e precisam ser independentes, para aprenderem a se virar sozinhos”, orienta Sônia Regina Blasi Cruz, psicóloga e professora da Puccamp.

Os pais devem ter autocrítica, disponibilidade ao diálogo, empatia, compreensão do universo de referências dos filhos para entendê-los e aceitar seu crescimento. “Na prática, isso significa que os pais devem, sim, estabelecer limites, construir vínculos afetivos saudáveis, e mostrarem-se como fonte de valores pessoais. Porém, devem também haver um esforço continuado para conhecer o mundo a partir da perspectiva dos jovens”, explica Gonçalves Júnior.

Daniele Cera Morgan também é mãe. Ela afirma que sabe da importância de aceitar o crescimento do filho Gabriel de 15 anos, mas considera isso extremamente difícil. “Para mim, ele nunca vai deixar de ser meu pequeninho. Meu marido sempre fala que preciso deixar o Gabriel se virar um pouco sozinho, para não sofrer tanto no futuro, mas é muito duro; não consigo colocar isso em prática”, revela.

Ela já sente na pele essa dificuldade, pois seu filho pretende sair de casa para estudar em outra cidade, e terá que se virar sozinho. “Daqui a dois anos, meu filho vai sair de casa para fazer faculdade e já estou sofrendo antecipadamente com essa separação. Mesmo assim estou tentando me preparar psicologicamente, para não sofrer muito quando isso acontecer e aceitar esse crescimento”.

ELE DEIXOU DE SER CRIANÇA QUANDO….

Aos poucos, só fala com adultos

Torna-se mais triste e preocupado

Comparado com uma criança

Interessa-se mais por notícias de jornais

Os divertimentos são mais contidos, e os deveres levados mais a sério

Fonte: Flávio Gikovate
 

 

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