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A empresa é minha, e agora?

Publicado em: 15/10/2012

Por Isabela Reis  Fotos Sergio Nestor

A expressão “família e negócio não se mistura” é muito conhecida, mas a frase não é necessariamente verdadeira. Empresas comandadas por famílias são sólidas e numerosas. Representam cerca de 60% do PIB global, sendo que no Brasil, das 8 milhões de empresas em atuação, 90% são familiares. Além disso, das 264 empresas listadas na seleção Maiores e Melhores, da Revista Exame, 142 também tem esse perfil. Entretanto, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), de cada cem empresas familiares brasileiras, apenas 30% chegam a sua segunda geração e, dessas, apenas 5% sobreviverão à terceira geração.

Isso é consequência dos problemas apresentados durante a sucessão das empresas, principalmente devido à má preparação dos herdeiros. Os filhos, muitas vezes jovens e sem muita experiência, precisam assumir o negócio de origem familiar e enfrentar o medo e a pressão, tanto por parte da própria família quanto do mercado. Afinal, o cuidado com as decisões tem que ser maior porque o negócio já está consolidado. Mas, como é assumir essa responsabilidade? Como preparar os sucessores para não enfrentar tantos problemas na hora de assumir a empresa?

Rita Ritz, coach e professora de gestão de pessoas da Escola de Negócios IBE-FGV, afirma que o ideal é a sucessão começar desde cedo. O filho deve conhecer a empresa e começar a participar dos negócios assim que tiver idade e maturidade. “Além disso, o filho deve passar também por um aprendizado na organização, aprender sobre a cultura organizacional, aprender os processos implantados na organização, passar pelos diversos departamentos, enfim, conhecer a empresa de maneira sistêmica, para poder apreender sobre ela”, explica. É o que aconteceu com o estilista e empresário Gustavo Carvalho, conhecido no mercado como GuuhGreen. Ele assumiu uma empresa familiar do ramo de vestuário em Minas Gerais. Desde cedo se interessou pela atividade e se profissionalizou. “É uma área e um assunto que sempre gostei. Então me aprofundei, realizando cursos e me profissionalizando para melhor atender as funcionalidades do cargo de chefia”, conta.

A empresa foi fundada nos anos 50 por seu bisavô, Justino de Carvalho, e desde então vem sendo passada de geração para geração. “Foi uma empresa grandiosa para época em que foi criada. Hoje se modernizou completamente para atender novos públicos.” Com apenas 21 anos, GuuhGreen coordena e monitora todas as áreas da empresa. “Sempre tive interesse pela organização e pretensão de coordenar e monitorar todas as funções. Hoje em dia, monitoro todas as áreas: marketing, produção e logística”, acrescenta.

A importância da formação técnica e comportamental

Renato Spomberg, psicólogo clínico e organizacional, do Rio de Janeiro, que presta serviços para empresas familiares nos setores de indústria e do varejo, afirma que é fundamental a formação técnica e comportamental do sucessor para que ele possa lidar com todas as questões da empresa. “A pressão sofrida pelo filho, por parte da empresa, da família e do mercado, vão atrapalhar a tomada de decisão mais adequada. A não ser que ele possa ser preparado para lidar com todas essas questões”.

Spomberg salienta que é preciso preparar quem vai assumir como também quem vai sair. Um trabalho anda junto do outro. “Para a pessoa que vai assumir esta responsabilidade, é muito importante um trabalho de autoconhecimento e de conscientização de suas capacidades, habilidades, limites, inseguranças e dificuldades, para que estes aspectos fiquem mais claros. Além disso, é importante colocar este indivíduo junto com outras pessoas da liderança para discutir algumas questões estratégicas da empresa”, acrescenta.

Rita Ritz ainda lembra da importância das empresas familiares se profissionalizarem para não deixarem de existir a médio prazo. Segundo ela, a sucessão deve ser planejada e profissionalizada. “Os familiares, que exercerem alguma atividade profissional na empresa, devem estar lá por terem competência técnica e não por terem vínculo familiar.”

O perfil do dono

O sucessor deve ter o “perfil de dono” e deve ser preparado com vistas a gerenciar o negócio tanto operacionalmente quanto estrategicamente. “Um bom sucessor tem que ter como característica principal visão de futuro, pensar para os próximos anos e conseguir visualizar novas soluções para os atuais problemas”, completa Rita.

O contador com especialização em auditoria José Bendoraytes Filho trabalha na empresa da família há quase 45 anos. Para ser admitido na sociedade, é preciso ter tido capacitação profissional. Ele iniciou na empresa quando ainda era adolescente. “Trabalho na empresa desde meus 14 anos. Iniciei no nível mais baixo, como office-boy, e depois passei a atuar como profissional”, lembra.

Ele explica que o interesse em seguir os passos do pai nasceu da vivência que teve desde cedo com os negócios da família. “O interesse pela profissão de auditor independente nasceu do conhecimento da atividade, do relacionamento com os profissionais que trabalhavam conosco e de ter o privilégio de poder acompanhar meu pai nas atividades com os clientes”, pontua.

A empresa nasceu no início dos anos 60 e está na terceira linha sucessória. José Bendoraytes Filho e seu irmão são herdeiros da segunda geração e já contam com dois herdeiros da terceira geração, com um terceiro em fase de incorporação. Ele revela que nunca teve problemas com o irmão na empresa, já que esta sempre teve uma estrutura societária equitativa. “A divisão inicial se deu pela assunção de partes iguais entre os herdeiros da segunda geração que transferiram parte de sua participação aos da terceira geração. Esse processo ocorreu de forma natural, sem conflitos, uma vez que houve o reconhecimento da necessidade dessa estrutura equitativa”, explica.

Renato Spomberg afirma que não tem um segredo para a empresa continuar no caminho correto. “O que precisa ter são alguns princípios básicos e muito trabalho, pois estamos falando de pessoas e de relacionamentos: familiares e profissionais; e isto não pode ser esquecido”. E é aí que o planejamento da sucessão é importante. “Existem formas de fazer o planejamento sucessório, mas não é uma receita de bolo. É um momento muito delicado e importante para o futuro da família e da empresa que precisa ser conduzido com muito cuidado, respeito e habilidade em escutar as partes, assim como sugerir os passos deste planejamento”, acrescenta Spomberg.

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