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Quem tem medo dos cem anos?

Publicado em: 18/09/2012

Por Isabela Reis Fotos Sergio Nestor

A expectativa de vida aumenta cada vez mais. A barreira dos 80 anos vem sendo ultrapassada com facilidade pela população. Chegar à casa dos cem anos já é algo palpável, principalmente em países desenvolvidos. Mas a questão é: como ultrapassar os 80 anos e viver a velhice bem e sem medo?

Um novo padrão de envelhecimento está em curso. E, de fato, os números impressionam: em 1900 a expectativa de vida dos brasileiros era de 33 anos. Em 2002, de 63 anos. Hoje é de 73, sendo que a expectativa para 2050 é de 81 anos. Mas, o Brasil ainda está bem atrás no quesito expectativa de vida.

No Japão, por exemplo, um bebê que nasce hoje, pode viver até os 86 anos. Na Grã-Bretanha, um quarto de todas as crianças nascidas hoje deverá ultrapassar os cem anos de idade. Apesar disso, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil conta com uma população de 17 mil centenários e, mesmo sendo um número relativamente pequeno – representa 0,08% da população total do país – é um avanço, já que este total saltou 20% em 10 anos. As causas dessas transformações são as novas interfaces que proporcionam mais qualidade de vida: melhores condições sócio-econômicas, avanços na área da saúde e uma mudança no hábito e no comportamento de vida desses senhores e senhoras: hoje eles viajam, estudam, namoram, trabalham e não pensam em parar.

João Canedo de Carvalho tem 82 anos e afirma que o segredo para envelhecer bem é estar sempre com a consciência limpa e ao lado de quem gosta. “Gosto de estar sempre com meus amigos e minha família. Acho que devemos aproveitar todos esses momentos do lado de quem a gente gosta”, conta. Carvalho mora no Paraná e viaja todo ano sozinho para São Paulo e Minas Gerais para visitar os irmãos. “Vou à casa de todos os meus nove irmãos; fico viajando por um mês”, afirma. E não é só pelo Brasil que esse senhor passeia não; ele participa de um movimento religioso que prega a união das religiões e devido a isso já viajou para Roma, Budapeste e Hungria. O último convite é para ir à Suíça conhecer um centro ecumênico.

Mesmo com a idade avançada afirma que não gosta de ir ao médico. “Vou porque meus filhos me pedem, para ver se está tudo certo, mas não gosto não. Os últimos exames que fiz, não deram nada”, comenta. Segundo ele, o pensamento positivo da vida e o esquecimento das preocupações é o que lhe faz bem. “Não me preocupo com nada. Não penso nem na morte. Aproveito o agora”, diz. Ele afirma que a velhice é da mente e não da idade, e brinca: “quando eu chegar aos 120 anos, aí que vou começar a pensar em envelhecer”.

Aceitar a velhice é o primeiro passo para envelhecer bem. De acordo com Vera Regina Bellinazzi, geriatra e professora da Puccamp (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), o bem estar subjetivo é muito importante, pois exerce influência na autocrítica, a capacidade de aceitar as limitações decorrentes do envelhecimento e viver bem com elas.

Vera explica que mais importante ainda são os hábitos de vida saudáveis, e isso inclui atividades físicas, sob orientação médica, e alimentação balanceada. Além de evitar o tabagismo e o consumo de álcool em excesso. “A prevenção e/ou tratamento de doenças crônicas comuns na vida adulta, como hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto também é fundamental para prevenir complicações que limitam a qualidade de vida como, por exemplo, o acidente vascular cerebral e a insuficiência cardíaca”, completa.

Mentalmente ativo

Pensar na saúde é fundamental, mas não podemos esquecer da saúde mental. Manter-se ativo mentalmente é outro quesito para se ter uma boa velhice. “Além de fazer bem ao cérebro, traz satisfação pessoal. E as atividades para tal são muito diversificadas, como estudar uma língua estrangeira, aprender a tocar um instrumento, fazer um curso de informática, entre outras”, orienta Vera.

É o que faz Maria de Lourdes Cavalari Reis. Ela tem 83 anos e para manter a mente ativa tem vários truques. “Gosto de ler, fazer caça-palavras e de ver as notícias na televisão. Também faço tricô e crochê, geralmente crio as peças”, conta. E mesmo não sendo mais obrigada a votar ela ainda vai exercer sua cidadania no pleito. “Adoro política. Nunca deixo de votar. Nas eleições municipais, principalmente, sempre participo das convenções do meu partido”, diz. Ela é uma pessoa de bem com a vida e afirma que o segredo é não ficar sofrendo por nada, e falar tudo o que pensa. “Falo tudo o que penso, até o que não é preciso”, acrescenta aos risos.

Maria de Lourdes conta que o único problema sério de saúde que teve foi um câncer de mama há 13 anos e afirma que a autoestima foi fundamental para a cura. “Tive câncer, mas nunca pensei que era isso. Para mim, sempre foi um problema qualquer. Não me desesperei e em nenhum momento pensei que iria morrer por causa do câncer”. E conta que não quer morrer tão cedo: “tenho medo de morrer sim. Acho esse mundo tão maravilhoso. Ainda tenho que ver e viver muita coisa bonita”, acrescenta.

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