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Psiu!

Publicado em: 18/09/2012

Por Isabela Reis Foto Ricardo Lenta

Você já parou para pensar o quanto o barulho faz parte da nossa vida? São os automóveis no trânsito, as buzinas, o ambiente de trabalho normalmente bastante agitado e ainda quando saímos à noite para relaxar os lugares mais procurados também são barulhentos, como boates, bares e restaurantes com música alta e muita gente. Assim fica quase impossível ter um minuto de silêncio durante todo o dia e, até parte da noite. No mundo louco, como nos dias de hoje, o silêncio tem se tornado algo raro. E não existe som mais perturbador e mais intimidador do que o silêncio. No entanto, não existe nada mais apaziguador e mais aconchegante do que a ausência de som.

O silêncio, cultivado por pelo menos 15 minutos durante o dia, pode trazer excelentes benefícios para a saúde, como a diminuição do estresse. Mas, essa paz não se resume somente ao ato de não falar e também do silêncio interno; ela é capaz de descansar a mente e melhorar a concentração.

“Os momentos de silêncio melhoram a concentração por não serem percebidos estímulos correntes. Além desse benefício, o silêncio diminui o risco de surdez por lesão do nervo auditivo”, afirma Elisabeth Quagliato, professora do Departamento de Neurologia da Unicamp. Ainda, segundo ela, é possível praticar o silêncio em mundo barulhento como hoje. “Procure afastar de fontes sonoras inúteis e indesejáveis, ouça música com volume mais baixo e fale mais baixo”, orienta.

A terapeuta corporal Andréa Bomfim Perdigão escreveu o livro “Sobre o Silêncio”, com o objetivo de fazer com que as pessoas entendam melhor o silêncio e sua importância. “O objetivo foi fazer um convite para todo mundo mergulhar nessa imensa e reveladora potência que é o silêncio: uma oportunidade valiosa e diária para que estejamos realmente dentro de nós mesmos; para que, aí sim, possamos nos comunicar mais inteiros e verdadeiramente”, explica.

A ideia do livro surgiu de um momento de sua vida que parecia dar tudo errado. “Esse livro nasceu de um período em que perdi tantas coisas e tanta gente, entre as quais o meu pai. Foi um período ausente de sentidos, sem lógica e respostas, que senti como se minha vida tivesse sido tomada por um grande silêncio”.

A partir de então Andréa começou a observar como as pessoas lidavam com o silêncio em suas variadas formas: o silêncio existencial ou acústico propriamente dito. “Vi que, embora quase todo mundo tenha uma postura simpática em relação ao silêncio como ideia, as pessoas na verdade não toleram o silêncio, tentando colocar no lugar dele sons e ruídos das mais variadas qualidades; tudo para preencher a consciência do espaço vazio que o silêncio gera”, conta.

Ela colheu depoimentos de profissionais de diversas áreas de atuação, como Arnaldo Antunes e Ferreira Gullar, e procurou entender como eles interagem com o silêncio. O critério para a escolha dos entrevistados foi subjetivo e priorizou pessoas de destaque em suas respectivas áreas, como a poesia, a física e a psicanálise. “Por meio das entrevistas pude perceber que o silêncio é a fonte da formulação não só da poesia, da música e de todas as formas de arte, mas ela é a fonte da formulação da nossa própria essência. Viemos do silêncio, e para o silêncio voltaremos”, afirma.

Ficar em silêncio em um mundo barulhento como o de hoje pode parecer impossível, mas existem pequenas atitudes que diminuem a camada de ruído, ampliando o silêncio. “Preservar alguns instantes para estarmos sozinhos, quietos, apenas sentindo o movimento da respiração, oxigenando o nosso corpo. Contemplar um pôr do sol, ou às vezes observar, da nossa janela, um cruzamento de uma rua e ver o movimento das pessoas andando, dirigindo. São pequenos truques para inserir silêncio na nossa vida cotidiana”. Para Andréa, só assim podemos resistir à invasão sonora que nos assalta diariamente nesse mundo hiperestimulado e hiperestimulante.

A assistente social Maria Cecília Nogueira Audi pratica o silêncio por intermédio de aulas de yoga e meditação. “Frequento aulas de yoga duas vezes por semana. Os exercícios de postura, respiração e relaxamento auxiliam na prática do silêncio. Além disso, em casa pratico meditação durante 15 minutos”.

Maria Cecília diz que os exercícios de silêncio trazem benefícios tanto físicos quanto mentais. “Percebo que a prática da yoga por meio das posturas ou por meio da meditação nos restitui a saúde física e mental, pois melhora o funcionamento do organismo, reequilibra o sistema nervoso, acalmando a mente e deixando que as emoções aflorem”, fala a assistente social.

Outra forma de silêncio necessário para o ser humano é o interno. “O silêncio interno é a principal forma de silêncio que julgo necessário. Tentar, permanentemente, interromper o fluxo autônomo e viciado de pensamentos em nossa cabeça e buscar um estado de disponibilidade para um real contato com as pessoas com as quais convivemos” afirma Andréa.

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