comportamento

Amor ping pong

Publicado em: 14/06/2012

Por Paula Torres Arte Gabriela Faria Silva

“Começamos quando eu tinha 17 anos, e o rolo durou até meus 27. A gente ficava junto e depois terminava. Eu namorava outro cara. Ele se aproximava. Dava entender que seria para valer. Eu terminava o namoro. Ele não desenrolava. Por fim, a última vez que estive com ele foi quando já estava ficando com o meu atual esposo”, revela Débora de Oliveira, que viveu por dez anos o chamado relacionamento ioiô, que começa, termina e volta, similar ao brinquedo que vai e volta.

Esse tipo de relação é um dos efeitos colaterais do mundo global em que estamos inseridos, em que a ansiedade, o individualismo e a falta de tempo se fazem presentes. “As pessoas de hoje detêm muita informação e muita pressa. Não estão dispostas a investirem, serem pacientes ou tolerantes umas com as outras, o que é necessário para se manter um relacionamento duradouro” explica Rosa Eugênia de Freitas Pinto, psicóloga, com formação em psicanálise e doenças psicossomáticas, e há oito anos estuda o comportamento das pessoas na era globalizada.

Toda pessoa está propensa a ter uma relação ioiô, mas a geração dos 20 anos é a mais atingida. De acordo com a psicóloga, apenas 30% das pessoas são felizes com este tipo de relação e não vê vantagem alguma em vivê-las, tornando as pessoas vazias e solitárias. “O foco é saber o que você quer e qual é o seu objetivo para não atrair qualquer coisa. Só assim você poderá decidir o que te faz bem”, comenta Rosa.

A expressão relacionamento ioiô foi usada pela primeira vez, segundo a jornalista Júlia Duarte, autora do livro “Relacionamento Ioiô”, pelo ex-colunista da revista Vip, Fabio Hernandez, que também tem um blog chamado “O Homem Sincero”.

Os relacionamentos de Júlia foram sofridos porque toda vez que voltava, achava que poderia ser diferente, mas nunca eram. Por isso, resolveu compartilhar seus três relacionamentos amorosos e de amigos em sua obra, traçando um paralelo de cada tipo de relacionamento com os já conhecidos na mídia. “Resolvi contar minha experiência no livro. Entrevistei todos os meus amigos que tinham passado pela mesma situação que a minha inclusive meus exs”, revela.

Durante o processo de trabalho de campo de seu livro, Júlia pôde perceber algumas características gerais que definem a tal relação que é desgastante para muitos. A falta de maturidade, a falta de amor próprio relacionada com a baixa autoestima e a falta de limites em determinar até que ponto se pode chegar são os aspectos gritantes que definem este relacionamento em que se tem o triunfo da esperança sobre a experiência.

Adrielle Martins é outra dentre as tantas pessoas que vivem atualmente uma relação cheia de idas e vindas. Ela não sabe ao certo quantas vezes largou de seu marido. “É muito desgastante, mas como tudo tem seus dois lados, quando nos reconciliamos, tudo fica melhor do que antes. É como se nada existisse; só nós dois. Se eu quisesse um relacionamento perfeito, compraria um livro”, brinca.

Ela conheceu seu marido na internet, via Twitter. Adrielle morava na Bahia e ele em São Paulo. Ela largou tudo e foi viver na capital paulista. O conflito de opiniões sempre foi a causa de tantos términos. “Eu e ele pensamos muito diferentes. Às vezes, penso que poderia falar menos e talvez assim brigássemos menos. Se eu fosse mais paciente, não teria terminado e reatado várias vezes”, confessa Adrielle.

E agora? Como vou sair dele?

Não tem como escolher. Ter este tipo de relacionamento nunca será uma escolha, quando a pessoa percebe, já aconteceu, já está nele ou passou por ele. Júlia Duarte esclarece que este é difícil sair de um relacionamento sem se machucar. “Não acho um relacionamento saudável pelo ponto de vista emocional, mas para a pessoa saber o que é ter um relacionamento bacana, tem que passar por alguns que não sejam e tudo vale como experiência”, orienta Júlia.

Foi isso que Débora fez. Conheceu o outro lado dos relacionamentos e, em menos de sete meses, já estava casada e hoje possui uma filha de um ano. “Não foi uma paixão avassaladora, nem um amor desmedido, como o que senti pelo meu ex-namorado. Agora, é algo mais racional e planejado. Estamos casados há cinco anos e estamos construindo um futuro juntos”, revela.

Júlia é bem enfática no conselho para quem está passando pela relação ioiô. “Preste bastante atenção na atitude dos outros. Falar é fácil, mas as atitudes sempre falam mais alto. Se alguém quer a relação, vai ficar nela. Não vai fugir ou dar desculpas esfarrapadas para ir embora da relação.”

Muitas vezes os homens são primeiros a serem condenados pelo senso comum quando se fala em pular fora de uma relação. Mas a culpa disso tudo não é apenas de uma parte, e sim das duas. “Os homens estão assustados com o comportamento das mulheres. Estão cansados das mulheres que pegam no pé. Eles querem um relacionamento sério, mas com pessoas diferentes, porque já foram altamente feridos”, diz Rosa, que afirma atender em seu consultório a mesma porcentagem de homens e de mulheres que se queixam do vazio existente do relacionamento ioiô.

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