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Quantos anos você tem?

Publicado em: 11/12/2011

Por Carolina Romariz Foto Silvia Boratti

Há quem goste e quem não goste de revelar a idade. Tem gente que passa a vida buscando artifícios para não envelhecer. Pois bem, tudo isso é em relação à aparência, mas, e quando as atitudes interferem no perfil psicológico de cada um? Pessoas jovens assumindo posturas adultas e gente adulta se infiltrando no mundo dos jovens. Os norteamericanos criaram o termo “ageless”, que significa sem-idade, para traduzir perfeitamente esse novo modelo de comportamento. Nos dias de hoje, cada um vive à sua maneira independente das primaveras que já completou.

A inversão de papeis

Embora aconteça para os dois lados, é mais fácil se deparar com pessoas de maior idade desfrutando dos ambientes joviais. Quando os papéis se invertem, é a constatação de que alguém novo assumiu uma postura adulta. A empresária no ramo de financiamentos Bruna Alcântara é um exemplo disso. Tem 23 anos, trabalha desde os 15 e por ter feito determinadas escolhas teve de abdicar de muitas tarefas cabíveis à sua faixa etária.

“Às vezes chegava a ser frustrante. Não podia nem participar de trabalhos em grupo da escola ou até mesmo de festas de amigos, baladas, viagem de formatura do ensino médio, enfim, tudo que envolvesse o horário de trabalho ou que prejudicasse meu desempenho no dia seguinte, não podia participar”, conta.

Para a psicoterapeuta analítica Sanny Padovani, as etapas de amadurecimento devem ser cumpridas, de acordo com a escala de crescimento de cada um. “Para cada fase da vida, cabem determinadas responsabilidades do tamanho que a maturidade do indivíduo permite. É importante ressaltar que esse processo, quando vivenciado dentro de cada fase adequada é que vai ajudar o sujeito a se transformar num adulto que poderá ficar confortável em assumir seu lugar na família, no trabalho e na sociedade”. 

A importância de cada momento ser devidamente cumprido está ligada a um conceito que recebe o nome de “adultescência”, ou seja, o adulto prolonga a fase infantil uma vez que não usufruiu do momento na idade ideal. Porém, adquirir crescimento maduro não está diretamente vinculado à idade. “Seria mais correto dizer que o sujeito que está inserido numa família cuja estrutura o ajuda a organizar-se dentro de sua fase de desenvolvimento terá maior condição interna de fazer esse processo, sempre respeitando a individualidade de cada um”, esclarece a também psicóloga clínica e grupoanalista Sanny.

Tira daqui, conquista de lá

Para a prodígia empresária, quase nunca sobra tempo para diversões demasiadas. O relógio dela corre para os negócios. Nada de baladas, encontro com os amigos, festas de faculdade; aliás, ela ainda não ingressou em um curso acadêmico. “Quando terminei o ensino médio aos 17 anos, dediquei todo o meu tempo ao trabalho. A faculdade é algo importante que pretendo realizar talvez no próximo ano”, revela.

A independência financeira veio cedo. Enquanto algumas garotas de sua idade ganhavam o primeiro carro dos pais, aos 18 anos, Bruna se autopresenteava com o mesmo produto. Ainda hoje mora com a família, mas é enfática em dizer que se mantém sozinha e está lá por opção. Os bens que adquiriu servem de recompensa do cotidiano que optou, e que descreve como a “vida após os 30 anos”: de casa para o trabalho, de lá, para a academia. Depois disso, de volta para casa. “Já fiz alguns investimentos, além dos carros que já troquei; estou no terceiro. Essa parte é muito gratificante e compensa as coisas que deixei de fazer”.

O que a vaidade tem a ver com isso?

Todo mundo tem suas peculiaridades quando o assunto é vaidade. Até os que fingem não ligar, em algum momento, e desde muito cedo, estão dispostos a dar um trato seja no estilo, no corpo, no rosto ou até mesmo na forma de se portar diante das pessoas. No caso dos sem-idade, o fato de estar bem tende a estar mais relacionado com pessoas mais velhas.

Os mais novos, em sua maioria, ainda estão com “tudo em cima”. Isso ocorre pelo medo de que a aparência física, juntos às marcas do tempo, deixem que os números fiquem evidentes. “A vaidade aparece mais como um sintoma dessa estrutura. Geralmente, são pessoas muito ligadas à aparência física e à necessidade de exposição, bem própria do adolescente. Elas têm mais dificuldade em aceitar as modificações que a vida traz ao corpo, desconectando o corpo vivido da história vivida. Normalmente, têm grande dificuldade de assumir relacionamentos fixos e estáveis, já que não conseguem lidar com as divergências que qualquer relacionamento amoroso traz. Buscam apenas o prazer”, esclarece Sanny Padovani.

Paulo Salles Aranha tem 42 anos e acaba de voltar de um curso de intercâmbio de um ano na Irlanda. Ficou em casa de família em Dublin. Frequentou baladas e os grandes shows de rock do verão Europeu. Mais do que se sentir como um verdadeiro adolescente, viver desse modo, para ele, é um “estado de espírito”. “Ainda me sinto muito jovem. Às vezes, esqueço minha idade. Não penso em casar e muito menos em aposentadoria. Estou na fase de curtir a vida”, resume. “A única coisa que me chateia é quando me chamam de senhor”, conta, descontraído.

Época de ouro

Comportamentos como esses fizeram parte da história, não das comuns e sim das que compõem a mitologia grega. Existia uma época denominada “Era de Ouro”. Nesse tempo, as pessoas não envelheciam e terminavam suas vidas de forma serena. Isso acontecia nos tempos de Cronos, um ser sobrenatural. Tudo isso só terminou quando o segredo do fogo foi revelado pelo titã Prometeu.

O lado afetivo

Quem assume viver sem se preocupar com a idade, guiando-se pelo que sente e como julga interessante deve saber que vai precisar, em algumas ocasiões, se impor diante da sociedade. “A sociedade não é muito condescendente com indivíduos que não atendem às exigências e à rapidez que o mundo apresenta. Àqueles sujeitos que assumem as coisas da vida precocemente o convívio é perfeitamente aceitável. Porém aqueles que demoram mais a assumir seu lugar e obrigações podem ser excluídos pelo grupo, já que este terá que assumir a responsabilidade do que seria de todos”, alerta Sanny.

A parte sentimental deve ser levada em consideração. Quem opta por assumir responsabilidades ou livrar-se delas fora dos momentos certos pode sofrer consequências no quesito psicológico. “Certamente, não é nada positivo, uma vez que toda sua vida afetiva fica comprometida, como assumir e manter uma vida profissional estável, estabelecer relações amorosas e afetivas saudáveis e construir um espaço familiar adequado para a criação dos filhos. Aos que conseguem atingir esses estágios, o custo que assumem é bem maior que os benefícios que são capazes de perceber”, comenta a psicoterapeuta.

A microempresária sente na pele isso quando fala dos laços que não conseguiu manter. “Devido à grande dedicação que sempre tive ao meu trabalho, acabei deixando de lado as pessoas que não estavam envolvidas diretamente nele, não porque eu quis, mas por não ter tempo suficiente para isso. Acabou que a relação com as pessoas da minha idade até hoje é quase nenhuma”, desabafa Bruna Alcântara, que se considera cinco anos mais velha do que está registrado em sua certidão de nascimento. Teria então, 28 anos. E você, quantos anos tem?

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