variedades

Pai profissional

Publicado em: 11/11/2011

Por Carolina Romariz Foto Yuri Arcurs Arte Ricardo Lenta

Elaboração de metas e táticas objetivas de treinamento. A maratona para o mercado de trabalho começa na infância e dura o resto da vida. Erros são inadmissíveis e o topo do pódio é o sucesso. A nova safra de pais não mede esforços e exagera nos cuidados para tornar os filhos “vencedores”. Passam por cima de conceitos e valores éticos. Antes da certidão de nascimento, as crianças já obtêm um email. Esse novo modelo é analisado pelo escritor e filósofo suíço Alain de Botton em seu texto “A lógica de ser pai ou mãe em tempos modernos”.

Para ele, que reside atualmente em Londres, a experiência de não ter filhos e se deparar com a nova forma de criação é aterrorizante. Em seu texto, Botton relata que “agora vivemos em uma sociedade e uma era em que predomina a máxima de que o sucesso ou o fracasso de um adulto está diretamente ligado à qualidade do tratamento que ele recebeu durante a infância”. Esse cenário, decorrente da vida globalizada e cosmopolita, é reflexo das transformações sociais, políticas e econômicas dos últimos 60 anos.

“Hoje vivenciamos algumas consequências das mudanças. O poder aquisitivo melhorou, no entanto, o tempo que se passa com a família diminuiu. Por esse motivo, existe um conflito no comportamento dos pais, pois, ao mesmo tempo em que se ausentam de casa, procuram, às vezes, compensar a ausência com presentes e superproteção”, explica Maria Belintane, doutora em educação, membro do Laboratório de Psicologia da Unicamp e consultora pedagógica para pais, professores e de projetos em educação econômica.

Segundo ela, as pesquisas têm mostrado que os pais estão preocupados com a felicidade imediata e ainda não se deram conta sobre o que pode ocorrer no futuro. Tem mãe, de qualquer nível socioeconômico, que acha que a maneira de vestir seus filhos representa seu cuidado com eles. No futuro, quando o filho estiver trabalhando, não será a roupa que o manterá no emprego, pelo contrário.

1, 2, 3 e já

Aniversário, Natal, Dia das Crianças… O que não faltam são datas comemorativas para ser presenteado. As crianças de uma outra geração sabiam o significado e a importância de cada uma dessas festividades. Faziam listas de desejos e de prioridades para anunciar apenas quando estivessem próximas. Ana Luiza Saraiva tem 28 anos, é arquiteta, empresária e mãe de dois filhos. Com certeza, fez parte desse grupo de ansiosos e reconhece que sua criação foi muito mais rígida do que a que ela tenta passar para seus filhos.

A prole de hoje quer tudo para ontem, já e agora. É aí que entra o processo de negociação que, nesse caso, é quase sinônimo de imposição de limites. “No meu caso, quando as coisas são importantes, são impostas. Quando não, são feitas a base de negociação, até porque a vida hoje em dia é bem flexível em relação a quase tudo”, conta a arquiteta.

De acordo com Maria Belintane, essa é uma das características dos pais modernos. “O imediatismo faz com que muitos pais queiram dar aos filhos tudo o que podem de forma a viver o presente intensamente. O momento que se vive com os filhos é de muita felicidade e descoberta. Percebe-se que não se esperam mais datas importantes para se dar um presente. O presente é agora, e não dá para esperar”, analisa.

Medo e superproteção

Em um outro trecho do texto, Alain de Botton reafirma que “essas preocupações podem parecer maneiras de tentar conter um pânico imensurável em relação à audácia de se ter colocado uma criança nesse mundo problemático”. Os superprotetores da nova geração não se permitem errar e por conta disso, encontram um ônus logo no início da empreitada, o sofrimento, que começa desde a primeira vez que terão que deixá-los, por exemplo, na escola.

Porém, atuar em tempo integral como escudo pode ser traumático e poupar de situações importantes para o crescimento e desenvolvimento de qualquer ser humano aconteça. “A superproteção para os pais é sinônimo de carinho e uma maneira de mostrar que amam o filho. Atrelado a isso vem uma ideia de que o filho precisa ser feliz sempre e a qualquer momento. Isso é um grande equívoco. Eles ficam conosco por um tempo, depois alçam vôo e vão tentar a vida lá fora. A superproteção impede que desenvolvam estratégias para resolverem seus conflitos e mais ainda, são incapazes de se colocarem sob o ponto de vista do outro”, comenta a psicóloga. Ana Luíza concorda, mas, acha uma tarefa um tanto complicada. “Superproteção é ruim em todo tipo de relação, pois o verdadeiro crescimento só se dá por meio de experiência própria, mas, para quem ama, não querer poupar quando se é possível, é uma missão bem difícil”, revela.

O resultado da dificuldade em lidar com essa situação é resumido muito bem por Maria Belintane. “Acompanhei o crescimento de um garoto que na escola dava muito trabalho. Filho de pais que sempre achavam que o problema estava na escola. Hoje ele tem 31 anos, não para em emprego algum porque não se submete às ordens dos superiores, achando que estão sempre errados. Esse é um dos resultados da superproteção. Por outro lado, o filho pode reagir de outras maneiras: procurar sair de casa o quanto antes para se ver livre ‘das amarras da família’; não conseguir definir uma profissão por falta de segurança; não estabelecer relacionamentos estáveis ou entrar sempre em situações complicadas; iniciar projetos, mas não conseguir terminá-los”.

Educação ligada à hereditariedade

Não é receita de bolo nem muito menos fórmula matemática. Educação está atrelada à hereditariedade. Trata-se de um ciclo que evolui por intermédio das gerações. É fato que as formas mudaram, mas essa máxima que é o cartão de visitas para o crescimento da espécie sempre esteve munida de sentimentos. “Amor transcende a própria existência. Você faz o que for necessário para que aquela pessoa seja feliz. E a chave está exatamente nisso, em colocar limites. Tem que estar claros os valores e querer que eles façam parte da vida do filho. Por exemplo, o pai pode dizer: ‘entendo que você gostaria de ficar na festa até a uma da manhã, mas em casa as regras são essas: às dez e meia estou te buscando’”, comenta Maria Belintane.

Enxergar e reconhecer os defeitos também aparece como uma forma de maturidade no momento em que educa. A empresária Ana Luíza consegue enxergá-los de forma exacerbada uma vez que visa a consertá-los. Já a professora é taxativa em dizer que os pais são condescendentes nesse aspecto devido à superproteção.

Sem controle

Ficou claro que na metamorfose da criação o principal requisito é ter o resultado da felicidade instantânea. Tudo em excesso é um erro. Isso pode contribuir para que o filho queira a liberdade mais rápida do que deveria. Pode se sentir preso e se isentar das responsabilidades dos laços com a família.

Não há como controlar tudo e o filósofo Alain de Botton dá a dica em seu texto. “Para quem está de fora, é evidente que a vida por si só não vai fazer jus às esperanças depositadas nos ombros dessas crianças – não vai evitar divórcios, câncer de próstata, vícios, depressões mesmo se eles ganharem estrelas douradas. As crianças podem até dominar a álgebra, desenhar amebas, escrever belas histórias sobre as férias e memorizar as capitais do mundo, de Wellington a La Paz. Ainda assim, nada pode ser feito para protegê-las dessa série de problemas”.

Comentários

Powered by Facebook Comments