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A anatomia de um craque

Publicado em: 11/10/2011

Por Renata Guerreiro

Dia 2 de setembro de 1989, às 9h50 da manhã de um sábado, nascia mais um ídolo do futebol brasileiro. Alexandre Rodrigues da Silva, o Alexandre Pato, veio ao mundo com 47 cm e 3.050 kg, através de parto cesariano. Foi no Hospital Policlínica Pato Branco S/A, pelas mãos do ginecologista Ângelo Wilson Vasco, médico e amigo da família há mais de 30 anos, e do pediatra Abraão.

Sua família desenhou o destino quando, mesmo morando em Francisco Beltrão na época, escolheu Pato Branco como seu local de nascimento, dando inconscientemente ao filho o nome que lhe consagrou mundo afora.

Na última semana de gestação, Rozeli hospedou-se na casa de sua mãe, Gasparida Almeida, para esperar o parto. Na maternidade, com medo de perder o filho de vista no berçário, o pai Geraldo marcou Alexandre por um símbolo de nascença, uma espécie de “furinho” que tem próximo à orelha. Antes mesmo de vir ao mundo, os pés de Pato já demonstravam sucesso, ao “chutar” forte na barriga da mãe desde os sete meses de gestação.

Logo que começou a engatinhar sentado dentro de casa, aos seis meses, a mãe lembra que os interesses do filho eram por brinquedos em formato de bola, menosprezando os carrinhos. Aos oito meses, já de andador, Rozeli conta que o filho esforçava-se para abrir as gavetas de peças íntimas e apoderar-se das meias, guardadas enroladas, para chutá-las pela casa. Laranja, limões, batatinhas, nada escapava dos pés de Alexandre Pato. “Algumas vezes quando ia fazer uma limpeza mais pesada e arrastava móveis, era comum encontrar limão seco e laranja apodrecendo atrás dos móveis”, rememora a mãe, divertindo-se.

Em função da profissão do pai, a família de Pato morou em diversos municípios do sudoeste do Paraná. Quando Alexandre Pato completou dois anos de idade, a família retornou a Pato Branco, onde moram a família do pai Geraldo e também da mãe Rozeli. Aos três anos, os passeios pelas rias de Pato Branco eram marcados por chutes em pedras, garrafas plásticas ou qualquer outro objeto que chamasse atenção de Alexandre. “Ele puxava pela mão, chorava e muitas vezes me fazia atravessar a rua com ele, só para chutar latinhas”, narra Rozeli. Apesar da pouca idade já tinha um chute forte, tanto que acertou na lâmpada do poste e quebrou um vidro da janela do vizinho também. Coisas que seu pai teve que reparar.

Futebol de salão: a escolinha

Como a maioria dos grandes craques do futebol de campo brasileiro, Alexandre Pato desenvolveu suas primeiras habilidades no futebol de salão. Seu pai, como jogador de futebol ativo tanto em campeonatos da empresa quanto da sociedade, costumava levar os filhos no Grêmio Industrial Patobranquense. O clube recreativo promovia com assiduidade campeonatos em diversas categorias, menos para a pequena faixa etária de Alexandre.

Com cinco anos, chegou a jogar com os meninos de oito anos, o que demonstrou ao seu primeiro treinador em Pato Branco, Joel Carvalho, precocidade e talento. O resultado, é que o Grêmio criou a categoria Mamadeira, integrando Pato aos meninos de até seis anos.

A estréia pela equipe Mamadeira do Grêmio Industrial foi no Campeonato Interclubes da AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil). Alexandre sagrou-se campeão e artilheiro com 12 gols, em 1994. “Fomos campeões, mas não conseguimos levar o título, saímos com troféu de segundo lugar, pois os meninos que perderam ficaram muito tristes”, lembra o pai Geraldo. Esse foi apenas o começo da trajetória meteórica e vitoriosa de Alexandre, que viria tornar-se Pato dez anos depois, já pelo Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Sagrar-se campeão e artilheiro tornou-se comum para Alexandre Pato.

O talento no futebol também oportunizou que Alexandre Pato estudasse nos melhores colégios de Pato Branco, particulares e públicos. Era comum a família receber convites ou benefícios para que o menino estudasse e defendesse o time da escola.

Promessa de um craque diferenciado

Com onze anos, o supervisor das categorias de base do Internacional de Porto Alegre, Leonardo Alunson, pediu ao pai de Alexandre que levasse o garoto para uma avaliação para ver como se sairia no futebol de campo. O objetivo era compor uma equipe colorada para disputar um torneio infantil.

Acolhido no Beira Rio, Alexandre cresceu no mundo esportivo e cultivando o sonho de tão logo, colher os frutos que hoje tem em mãos. Até aos 16 anos não teve salário. Do Internacional, ganhava hospedagem, alimentação e treinamento. Era a oportunidade que o pato-branquense precisava para se aperfeiçoar. Seu pai enviava até R$ 50 por mês, mas o filho se questionava que não poderia comprar algo diferente só para ele, sem dividir com os amigos.

Geraldo revela que Alexandre comprava um litro de refrigerante, cinco pãezinhos e uma lata de leite condensado. Com os amigos, sentava na marquise do estádio e lanchavam juntos. Aos 15 anos, Alexandre foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira Sub-15, mas o Inter não o liberou, pois segundo seu pai, depois ficaria difícil segurar os interessados. A mãe salienta que, antes de ser revelado na equipe profissional, o filho jogava no time B do Inter e sempre foi muito bem nas categorias de base. “Isso só não era mostrado para o mundo”.

A história do crescimento profissional de Pato foi muitas vezes marcada por segredos, resguardo dos próprios dirigentes do clube, para protelar ao máximo o interesse de outros, principalmente estrangeiros, pelo jogador. O pai percebia que o medo do Inter era que a família recebesse propostas de outras equipes, o que garante: “não seria aceita”. Com menos de dezesseis anos, Alexandre assinou contrato com o Internacional.

Despertar para o mundo

Em junho de 2006, com apenas dezesseis anos de idade, Pato foi escalado pelo Internacional para disputar o Campeonato Brasileiro sub-20 contra adversários até quatro anos mais velhos. Mesmo assim, foi artilheiro da competição com sete gols e sagrou-se campeão vencendo na final o rival Grêmio por 4 a 0. Preparado para ingressar na equipe principal do Inter em novembro de 2006, sua estréia foi cercada de expectativas, treinos secretos e declarações entusiasmadas de dirigentes, que viam nele a promessa de um craque diferenciado. Pelo Internacional de Porto Alegre, ele jogou cinco anos nas categorias de base e apenas 27 partidas como profissional, fazendo 12 gols. A estreia no time principal do Internacional foi em 26 de novembro no Parque Antártica, contra o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro de 2006. Alexandre Pato confirmou com sobras o que dele se esperava, ao marcar seu primeiro gol como profissional com apenas um minuto de jogo. No restante da partida, deu dribles desconcertantes nos marcadores, assistências para mais dois gols, cabeceou uma bola na trave e comandou a goleada do Internacional por 4 a 1, tudo isso no estádio do adversário.

Venda milionária

Foi a vitória com a Seleção Brasileira Sub-20 na Copa Sendai no Japão, em agosto de 2006, que abriu de vez a porta para todo o mundo, principalmente os europeus, conheceram Alexandre Pato. O ponto culminante dessa revelação deu-se dia 2 de agosto de 2007, um mês antes de completar 18 anos, quando Pato foi contratado pelo Milan, da Itália, pelo valor de 20 milhões de dólares, a terceira maior transação da história do futebol brasileiro, só sendo superada pela ida de Denílson para o Real Betis em 1998 (40,5 milhões de dólares) e de Robinho para o Real Madrid em 2005 (30 milhões de dólares). Além disso, a venda do Pato é a mais alta realizada pelo Internacional até hoje, superando a transferência de Fábio Rochemback ao Barcelona em 2001 por 12 milhões de dólares. Segundo a imprensa especializada, Pato recebe só de salário cerca de 2 milhões de euros anuais (algo em torno de R$ 5 milhões) fora os ganhos com patrocínio e publicidade.

Ídolo milano

Número de sorte desde o princípio da carreira, no Milan, Pato escolheu a camisa 7, que pertencia a Andriy Shevchenko, antigo ídolo do clube. Pato teve seu primeiro jogo com a camisa do Milan, em um amistoso contra o Dínamo de Kiev, no dia 6 de setembro de 2007, marcando o primeiro gol milano, no empate em 2 a 2. Em sua estréia oficial pelo Milan no dia 13 de janeiro de 2008, na vitória de 5 a 2 sobre o Napoli, Pato teve ótima atuação durante a partida, marcando ainda o último gol do Milan, ao se livrar do zagueiro e tocar por baixo de Iezzo. Na comemoração, Pato foi muito festejado pelos companheiros e, com lágrimas nos olhos, beijou o escudo do Milan. Teve ainda seu nome ovacionado pela torcida, que gritava: “Olê, olê, Pato, Pato!!”.

Com pouco mais de 18 anos, Alexandre Pato já conseguia provar para o mundo que seus limites são infinitos e que tem muito ainda de si para dar: para a família, para seu clube, para seus fãs do Brasil e do mundo, pelo simples fato de que o futebol é o seu combustível mais precioso.

 

Seleção Brasileira

A primeira convocação para a Seleção principal foi em 22 de janeiro de 2008, para um amistoso contra a Seleção da Irlanda. Por uma torção no tornozelo esquerdo no jogo do Milan contra a Fiorentina, acabou sendo cortado. A estreia pra valer foi no dia 26 de março daquele ano, contra a Suécia, entrando no decorrer do segundo tempo e marcando ainda um bonito gol por cobertura, este que foi o gol da vitória do Brasil por 1 a 0. Já em 25 de fevereiro de 2010, foi o modelo da Nike, para a apresentação do uniforme que a Seleção usou na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Apesar disto, não foi convocado pelo técnico Dunga para o torneio.

No dia 26 de julho de 2010, retornou para a Seleção Brasileira, na primeira convocação de Mano Menezes. No primeiro jogo da Era Mano, Pato saiu jogando como titular, marcou um belo gol, driblando o goleiro dos Estados Unidos e estufando as redes. Desde então, é presença constante na lista dos convocados para a Seleção.

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