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Carmenère, uma uva muito interessante e exigente

Publicado em: 5/05/2017

A Carmenère é hoje uma das uvas mais apreciadas pelos brasileiros, que veem nos exemplares chilenos, amplamente disponíveis nas lojas especializadas, nos comércios eletrônicos e nos supermercados, um porto seguro para a compra. Será mesmo? É o que vamos descobrir…

 

Carmenere-Grapes

 

Por Arthur Azevedo

A Carmenère é originária de Bordeaux, na França, e a primeira menção à uva data de 1783, em Bergerac, e os recentes estudos de DNA realizados por Jancis Robinson, José Vouillamoz e Julia Hardig revelaram que a varietal nasceu de um cruzamento natural entre a Cabernet Franc e a Gros Cabernet, esta uma casta muito antiga, não mais cultivada na região.

Integrante de um importante grupo de uvas conhecidas como Carmenet, a Carmenère é meia-irmã da Cabernet Sauvignon e da Merlot.

A filoxera, praga que atingiu os vinhedos do mundo todo, exceto os do Chile, dizimou a Carmenère na França, a ponto da varietal ser considerada extinta. Hoje sabemos que existem apenas 21 hectares em toda Bordeux, ou seja, uma quantidade minúscula, que nem é mais aproveitada nos famosos vinhos da região.

Trazida para o Chile em meados do século 19, a Carmenère foi inadvertidamente plantada principalmente junto com a Merlot e, por causa do clima mais quente e seco que Bordeaux, teve uma relativamente bem-sucedida aclimatação. Como se trata de uma uva de maturação tardia, que precisa de 4 a 5 semanas a mais que a Merlot para atingir sua maturidade plena, os vinhos chilenos pretensamente de Merlot apresentavam muita rusticidade e inesperados toques herbáceos e de plantas do gênero Capsicum, com desagradáveis notas de pimenta e pimentão.

O fato intrigou muitos especialistas, pois a Merlot é considerada a mais feminina das uvas de Bordeaux, dando origem a vinhos macios e muito agradáveis. O mistério foi desvendado em 1994, pelos especialistas franceses em viticultura Claude Valat e J-M Boursiquot, que identificaram a Carmenère misturada à Merlot. A análise de DNA realizada em 1997 confirmou o achado e por muitos anos os chilenos se viram diante da dura missão de separar Merlot e Carmenère em todo o país, tarefa que só foi concluída muitos anos depois de iniciada.

Exigente ao extremo, a Carmenère necessita de condições perfeitas para seu pleno amadurecimento, com a coincidência de três janelas, ou momentos, de colheita: a janela do açúcar (necessário para o vinho ter o teor ideal de álcool), a janela da maturidade dos taninos (necessária para abrandar a rusticidade do vinho) e a janela do aroma (necessária para que os vinhos não tenham aromas herbáceos e de pimentão verde).

Quando essa feliz coincidência ocorre, as uvas atingem seu grau perfeito de maturidade e os vinhos mostram a grandeza da varietal, com deliciosos aromas e sabores de frutas vermelhas e pimenta negra. Um toque a mais de maturidade e surgem aromas e sabores de amoras e mirtilos, com notas de chocolate, café torrado e molho shoyu.

Existe um local no Chile, no Vale de Cachapoal, em Peumo, onde por razões muito particulares, quase todos os anos acontece o alinhamento das três janelas, e não por acaso dali saem alguns dos principais vinhos de Carmenère, como o mais caro e prestigiado deles, o Carmim de Peumo, da Viña Concha y Toro. Outros exemplares muito famosos, e os mais destacados representantes da excelência da Carmenère são: Santa Carolina Herencia, Montes Purple Angel,  Errazuriz Kai, Concha y Toro Terrunyo, De Martino Single Vineyard Alto de Piedra, Casa Silva Gran Terroir Andes, Antyal Carmenère Viñedo Escorial, Lapostolle Cuvée Alexandre Carmenère, Viu Manent El Incidente e Valdivieso Carmenère Single Vineyard. Para alegria dos amantes da Carmenère, todos esses vinhos estão disponíveis no Brasil, e para quem ainda não se rendeu aos encantos da uva, essa listinha vai ajudar, e muito, para um ótimo princípio de namoro…

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